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Rio de Janeiro: Foz, 2015

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O escritor gaúcho radicado no Rio de Janeiro faz um cruel e engraçado retrato do mercado editorial brasileiro ao contar a história de Graciliano, que ganha o mais importante prêmio literário do país e vê as portas da hipocrisia e da política literária se abrirem. É a mais sincera e possível sátira deste país que vive de aparências, inclusive na literatura.
JORNAL DIÁRIO CATARINENSE

O Ano Em Que Vivi de Literatura é um livro que encanta o leitor a partir de seu título. O achado – irônico – que dá nome ao romance do gaúcho Paulo Scott tem o mérito de produzir curiosidade com o paradoxo de “viver de literatura”. Ao longo da narrativa, percebe-se que os termos “viver” e “literatura” vão sendo matizados e relativizados, até o ponto em que já se tiver percebido que Graciliano, o escritor que protagoniza a obra, mal vive e mal escreve.
“Viver de literatura”, no caso do livro de Scott, é dilapidar, ao longo de um ano, um prestigioso e polpudo prêmio literário (de R$ 300 mil) alcançado com um pequeno romance, publicado por uma editora menor, à revelia do editor da editora comercial com a qual Graciliano tem contrato. Obtido o prêmio e de posse do dinheiro, o protagonista gaúcho, de cerca de 40 anos de idade, solteiro, sem filhos, tem a possibilidade de realizar o sonho de muitos escritores brasileiros: ficar um ano livre de pressões econômicas e disponível para se dedicar a seu ofício. Graciliano vende o carro e um imóvel no Rio Grande do Sul, para comprar um apartamento em Botafogo, no Rio de Janeiro, onde se estabelecerá. Paulo Scott, portanto, enfrenta-se com seu tempo, e cria, de modo bastante verossímil, o universo de um artista brasileiro ainda numa era de prosperidade econômica – o romance se passa em 2011 – diante de seu métier.
Esse escritor, Graciliano, que ao longo de todo um ano vive à margem da sociedade dita produtiva, o que tem a nos mostrar sobre ela? Quais agruras o herói de nosso tempo revelará? Vejamos: ex-professor universitário de História, Graciliano, de posse de seu capital, entrega-se à boemia e a pequenas viagens decididas por impulso, a bares e festas. É curiosíssimo como ao longo das 251 páginas que compõem o romance, Graciliano, não lê um só livro e pouco escreve. Por outro lado, é ativo nos bares e, principalmente, no Facebook, onde alimenta sua persona de escritor outsider, através de poemas e frases de efeito, depois de cujas publicações, tal qual criança ansiosa, aguarda curioso a repercussão. Assim conhece mulheres, que lhe rendem encontros sexuais, narrados com recursos da literatura pornográfica.
As peripécias sexuais do protagonista se intercalam com relações familiares ou amorosas de sua etapa gaúcha, viagens decididas sempre à última hora, reencontros com a família, a ex-noiva, os ex-colegas etc. E, entre as imagens do fauno gaúcho e do jovem professor emigrado, mostra-se ao leitor um homem imaturo e hedonista. Assim o vemos sendo achincalhado pelo editor, pelo pai, por leitoras, pela secretária contratada pelo editor para fazê-lo escrever, por alguma parceira. A cena eloquente que ilustra esta derrocada surge na página 180 quando à maneira de uma duplicação da tela de seu computador, sozinho, Graciliano masturba-se diante do espelho.
Paulo Scott logra dessacralizar a figura do escritor marginal, que se mostra, em seu romance, com tintas de subcelebridade, e possibilita que nos coloquemos também uma incômoda pergunta: em que medida se acredita ainda que haja alguma verdade na ficção que é ser escritor? No prestígio dado por uma matéria num caderno literário, num prêmio, numa vernissage?
JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO

Recheado de bom humor, insolitamente picante, O Ano em que Vivi de Literatura é, mais que nada, impiedoso e zombeteiro. Se num primeiro momento ainda nos é permitido rir das situações enfrentadas pelo protagonista, da sua falta de responsabilidade, do seu espírito errático e desorganizado, de seu bloqueio criativo, pouco a pouco percebemos que tais elementos são sintomáticos de um cenário que reflete a típica angústia pós-moderna.
Na rotina do Graciliano celebridade, do escritor assumido, há o peso da aceitação pública, da ansiedade pelas notificações de curtidas nas redes sociais, dos questionamentos sobre carreira, sobre saúde financeira, sobre lucidez, velhice e família. Em um dos capítulos, o personagem anuncia no Facebook que vai transformar em protagonista de seu próximo romance aquele que depositar R$ 5 mil em sua conta bancária. Em uma cidade de atormentados, ainda há quem o responda.
O personagem de Scott, risível, ridículo em suas ações, parece bem humorado enquanto é observado como outro. Quando percebemos que Graciliano também somos nós, a graça desaparece.
JORNAL O POVO (FORTALEZA)

O novo romance de Paulo Scott é mais uma prova de que ele não gosta de conforto. Depois de contos, romance e novela que, cada um, já enfrentavam desafios os mais variados – de simular por escrito a fala de gente de poucas letras a fazer um jovem de classe média interagir profundamente com uma índia, por exemplo –, agora ele se propôs um problema que pode até parecer banal, mas que resulta muito interessante.
Estamos falando de O Ano em que Vivi de Literatura (Editora Foz). Centro do enredo: um escritor contemporâneo, Graciliano, vence o maior prêmio brasileiro, e isso o leva a abandonar o emprego (era professor universitário de História) e sua cidade (Porto Alegre) para realizar o sonho de viver de literatura, agora no Rio de Janeiro. Graciliano tem a tarefa de entregar novo romance para sua editora. Não consegue escrever nada, embora saiba improvisar briefings a granel
O livro podia, então, ser apenas uma nova variação da manha bastante autocentrada, comum na nova geração de escritores brasileiros, de falar sobre como sofre o escritor, como é difícil escrever, etc. Mas não.
O caso é que Graciliano vive numa espiral de sexo das mais intensas (o romance pode bem ser lido como literatura erótica, quanto aos procedimentos e personagens, com cenas muito boas), enquanto vai-se enrolando cada vez mais em seus impasses, dos quais amigos tentam tirá-lo – um sugere que faça concurso para outra universidade, outro oferece a ele uma posição no Ministério da Educação, agora que o governo parece estar com força e tino para fazer as reformas pelas quais tanto tempo esperaram. (O romance é também um comentário, que agora soa agônico, sobre os anos de bonança recentes, com pleno emprego e afluência social, a que não faltou nem mesmo um pequeno boom literário.)
O rumo dessa história vai sendo levado adequadamente, até que surgem dois novos elementos no enredo – a tensa relação do protagonista e narrador com seu pai, e a angústia pelo sumiço de sua irmã. Mais sobre isso, só lendo.
O livro tem o encanto de fazer observações inteligentes, e de vez em quando muito originais, sobre os relacionamentos narrados, amizades com sexo, ex-amores reencontrados, amigos fugidios, tudo isso. Da mesma forma, há todo um encanto nas sacações do narrador sobre as três cidades em que transcorre a ação, principalmente o Rio, mas também São Paulo e Porto Alegre. Certa mulher carioca, por exemplo, é descrita como tendo uma “tristeza contida, uma tristeza que era praticada só pelos cariocas”. A linguagem é da família david-foster-wallace, a mesma de Daniel Galera, e também aproveitada de modo produtivo: minúcia descritiva, que não evita reiterações que, parecendo ser, não são triviais, mas poéticas. Leitura boa, romance inteligente, que fala mais do que aquilo que se dá a ler no enunciado. Por exemplo: a sensação do narrador sobre o tempo socialmente glorioso em que vive, que não o empolga, mesmo que seus amigos estejam no poder. Há por tudo um desconforto, que às vezes é meramente nominal, porque o furor sexual meio que compensa as frustrações, mas às vezes ganha importância emocional compatível com a força que o autor soube inscrever na história.
CADERNO DOC (SUPLEMENTO DE CULTURA DO JORNAL ZERO HORA)

Graciliano é o protagonista do sensacional “O Ano em que Vivi de Literatura”, do escritor porto-alegrense Paulo Scott. O personagem, também gaúcho, já era um autor de certo renome quando se instalou no Rio de Janeiro. A obtenção do prêmio, no entanto, funciona como o “abre-te sésamo” para o clubinho da cena cultural carioca, na qual desfila em meio a uma fauna constituída de jornalistas, editores, produtores de cinema e de conteúdo para a internet, escritores e colunistas de jornal. (…)
Scott, detentor de uma prosa afiada e de ritmo contagiante, empresta de si referências para seu protagonista, compondo um retrato fiel do meio literário: o mise-en-scène, os interesses furtivos dos agentes e dos editores, as “panelinhas”, a relação com a imprensa, as editoras que só enxergam o escritor quando premiado num selo menor, o mimimi dos autores que se acham menosprezados, o prestígio calculado pelas curtidas no Facebook. A figura do autor também não escapa dessa radiografia, desse “Paris é uma festa” com doses cavalares de a(lu)cidez. De como são suspeitas as oficinas que ensinam a escrever, de como o autor se utiliza de traumas do passado para alimentar sua literatura. Entre relacionamentos passageiros e ex-relacionamentos duradouros, Graciliano deixa um rastro de incompletudes que simboliza a incapacidade de terminar seu novo livro. Scott aglutina esses vazios para construir um romance sobre a solidão, sobre a permissividade do escritor, denotada na melhor de todas as frases para descrevê-lo, infelizmente inapropriada para um jornal de família como esse. “O ano em que Vivi de Literatura” tem valor semelhante ao da novela premiada que o mobiliza: “um livro certo na hora certa”.
DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ

Novo romance de Paulo Scott expressa a solidão carioca.
JORNAL O GLOBO

No livro, Graciliano recém-papou o prêmio literário mais polpudo do país, atraindo interesse — editorial, sexual — e expectativa para sua próxima publicação, que ele, presa da arapuca armada pelo sucesso, não consegue escrever.
A figura de linguagem aqui é a hipérbole: em Graciliano, a mistificação dos episódios supostamente típicos da vida de uma celebridade — as facilidades amorosas, as rivalidades e o embate boêmio levados às últimas consequências — são tingidos pelo ridículo da estilização romantizada de algo — oferta de royalties, volúpia inesgotável, fígado inoxidável — que, se acaso existir na forma hiperexagerada da narrativa, é para poucos autores em um país cujo índice de leitura é de 1,7 livro per capita ao ano.
ILUSTRÍSSIMA (DO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO)

As cenas de sexo do início do livro são atraentes, mas vão perdendo a força na medida em que a trama avança. Não se trata de um problema da narrativa, mas de um acerto: o leitor vai perdendo o interesse na contínua repetição das relações superficiais e fugazes do personagem, vivenciando com ele a sensação de esvaziamento emocional e incapacidade de estabelecer relações mais aprofundadas. (…)
Muitas vezes tolo, fútil e superficial, Graciliano é também sedutor e capaz de angariar a simpatia de qualquer um – inclusive do leitor. É um personagem complexo, sobre o qual se baseia a força de O Ano em que Vivi de Literatura, um livro que revela a solidão e os diferentes modos de escondê-la nos nossos dias.
JORNAL ZERO HORA

Vale conferir. É um retrato ácido do mundo das letras – que, de resto, não é muito diferente de outros mercados.
JORNAL O DIA (RIO DE JANEIRO)

Além das relações fluídas e frias com amigos e mulheres, os conflitos familiares alimentam a angústia de Graciliano. Paulo Scott desenha muito bem uma outra peça que colabora na formação do personagem: a relação tensa que o escritor tem com o pai. Os diálogos entre os dois ocupam poucos trechos do livro, mas o incômodo que esse vínculo familiar provoca no protagonista está sempre presente. (…)
Além do próprio enredo, o ritmo da narrativa ajuda a dar o tom desse período conturbado da vida de Graciliano: um tempo que passou acelerado, sem folga. Mas a angústia dele é a angústia de todo mundo, um sentimento que talvez não seja exclusivo de quem escreve.
JORNAL RASCUNHO

Ousado, seu romance de 2015 traça um corajoso e cruel retrato da vida literária brasileira da última década.
JORNAL O BELTRANO

O protagonista do livro é o jovem escritor Graciliano que ganha trezentos mil reais do maior prêmio do país em termos financeiros. O engraçado é que a vida de Graciliano no ano em que recebe esse prêmio não está ligada diretamente com a literatura, mas aos problemas da vida real, sem o romantismo que esse fato poderia ocasionar. Ir por essa premissa fantasiosa seria um grande equívoco e bastante simplório para investigar algo muito maior, que é a vida do escritor sem ilusões e clichês. Scott resolveu mostrar toda a problemática em torno do reconhecimento do artista e de como é sofrível a existência de quem resolve abdicar de tudo para produzir ficção. “O maior prêmio em dinheiro não era necessariamente o mais respeitado”, atesta o protagonista.
A vida de Graciliano é cheia de altos e baixos, com momentos (a maioria deles) de solidão e angústia e muitos excessos de álcool e sexo . Ele é um cidadão comum, tem as dificuldades de todos, mas acabou de ganhar trezentos mil reais, logo gastos com a compra de um apartamento. Muitas mulheres passam pelo seu caminho, e aos poucos ele vai perdendo o controle da própria vida por algum tempo. Não consegue, inclusive, escrever o novo romance aguardado pela editora. O ano que ele vive, teoricamente, de literatura, é o mesmo que, ironicamente não consegue produzir nada. Paralelamente a este fato, o período não deixa de ser bastante movimentado, e tumultuado, para Graciliano. O pai está bastante doente e a irmã saiu do convívio da família e resolveu desaparecer sem deixar nenhum contato.
O painel feito por Paulo Scott é claramente reconhecível, principalmente para os escritores. As críticas ao universo literário são bastante interessantes, sincera até demais. Graciliano, que de maneira alguma é alter-ego de Scott, pode ser qualquer autor brasileiro. Não existe glamour na profissão, ele deixa claro, muito menos reconhecimento para a maioria dos ficcionistas. Em determinado ponto do romance o personagem fala que ganhar o maior prêmio do país não quer dizer quase nada, pois no próximo ano outro vai ganhar, e assim sucessivamente. Uma verdadeira roda gigante. Altos e baixos, com o perdão do trocadilho. “Num momento como aquele, pro meu azar, o prêmio dum monte de grana que já nem existia mais na minha conta bancária e o perfil n’O Globo, definidor absoluto de status e prestígio na cabeça dum monte de gente do Rio de Janeiro e do Brasil, se materializava num grandíssimo monte de porra nenhuma e não serviam para porra alguma, mesmo”. (…)
A forma que Scott impôs ao texto é bastante interessante. Acompanhamos de perto tudo o que acontece. A intimidade do personagem, inclusive, é utilizada com maestria, com cenas de sexo (várias), por exemplo, convincentes. A prosa d’O ano em que vivi de literatura é limpa, ágil e de qualidade indiscutível, que flui sem dificuldades por conta do uso da primeira pessoa. Existe um refinamento sem concessões na prosa de Scott. O livro, acima de tudo, é muito bem escrito, comprovando a maturidade do autor, que já publicou oito livros, entre eles dois de poesia.O ano em que vivi de literatura consegue fazer um recorte muito sincero, até pelo fato de ter sido escrito por um brasileiro, que não está na lista dos mais vendidos, não ganha muito dinheiro com a venda dos livros, mas vive pela, e para, literatura. Só quem escolheu seguir por esse caminho pode entender.
Graciliano é bastante popular nas redes sociais, sempre escrevendo pensamentos e poemas. Mas aí está a grande sacada, pois tudo é muito artificial nos ambientes virtuais. Explorar esse aspecto no romance foi também uma boa ideia, principalmente agora que essas ferramentas têm uma importância muito grande para a divulgação de qualquer coisa. “Ela deu uma risadinha e disse que eu era uma pessoa diferente do que aparentava ser no Facebook, que no início daquele nosso encontro eu tinha passado a impressão de ser um sujeito bem austero, ainda mais austero e complexo do que aparentava ser no Facebook”. Lógico que, mais uma vez, Scott não apenas reproduziu o universo virtual que todos conhecem, ele usou da ironia para mostrar como tudo é tão frágil e mentiroso nesses ambientes.
SITE ANGÚSTIA CRIADORA

Paulo Scott utiliza parágrafos longos onde registra muito bem tanto o fluxo de consciência de seu protagonista, seu mundo interior e suas dúvidas, quanto os diálogos exaltados que Graciliano mantém com os bizarros personagens que inventou. Ele descreve com sarcasmo tribos urbanas e literárias, hipsters e acadêmicos, jornalistas e blogueiros, editores e cineastas, todos iguais em suas ilusões, superficialidade, ufanismo, incomunicabilidade e inevitável decadência. O ritmo do livro e o protagonista lembram muito “La dolce vita” (de Fellini) e “Celebrity” (de Woody Allen). Assim como nesses dois filmes assistimos o falso glamour de certos ofícios e vidas (as de jornalista ou de cineasta, respectivamente), “O ano em que vivi de literatura” oferece ao leitor um antídoto à ambição de escrever e tornar-se um ícone literário. O livro termina reproduzindo um encontro casual num elevador de hotel, mas agora Graciliano é apenas cortês, não o escritor sedutor e envolvente que encontramos no início do livro, já parece imunizado do torpor que o cegava, parece ter se apercebido antes que os demais os desdobramentos inevitáveis de uma vida de auto-engano.
BLOG LIVROS QUE EU LI

Em alguma medida, o livro expõe ainda as entranhas do mercado editorial brasileiro.
BLOG HOMEM DE VÍCIOS ANTIGOS

É difícil escolher um ponto de partida para falar da nova obra de Paulo Scott. Pensei em começar fazendo um contraponto sobre escritores que optam por certo isolamento e a nossa realidade de superexposição; considerei falar dos que recusaram prêmios literários em nome da coerência de sua carreiras ainda que os prêmio literários tenham, sim, as suas virtudes; cogitei iniciar pelo cenário pouco animador da prática de tietagem que se sobrepõe à prática de leitura, ou, ainda, por como as redes sociais, positiva para a circulação artística, têm nos tornado escravos da nossa própria egolatria. O ano em que vivi de literatura, romance recém-lançado pelo escritor gaúcho-carioca, é sobre esta experiência caótica da literatura na contemporaneidade, pequena engrenagem de um caos maior: do tempo, da sensibilidade.
REVISTA CAFÉ COLOMBO

Um romance em que a vida aflora com toda intensidade.
SUPLEMENTO PERNAMBUCO

Comecei a ler o ano em que vivi de literatura, do Paulo Scott, num café. Alguns livros pra mim não funcionam na rua, mas preciso testar. Esse me tirou a rua de fora pra me construir dentro da cidade inteira do Rio de Janeiro e também Porto Alegre, que não conheço e passei a conhecer do jeito que o livro me dá. Também São Paulo quando o Graciliano-protagonista pega uma motinho emprestada e acaba por aqui. Eu nunca vi São Paulo assim. Nem as mulheres que o Paulo (o escritor, não a cidade) descreve, inéditas pra mim e ao mesmo tempo, incrivelmente imagináveis. O livro todo é scott-puro, um jeito único de fazer ficção. O Facebook, por exemplo, é mais um personagem do livro, e que relacionamento difícil o do protagonista com a rede social. Mas do Facebook se desconecta. E as pessoas? E o bar? A história é de um escritor que ganhou uma bolada num prêmio literário e fica um ano vivendo da grana, o que parece divertido, mas no livro muita angústia. A distância do pai, eu já vivi, não só em quilômetros. E o amor escorrega pelos cantos, desce as escadas em fuga, não só o amor na família, o amor de casal, as mulheres entram e saem da pica do protagonista e o que fica além do gozo que escorre pelo ralo durante o banho? A solidão, que Solidão.
OITAVA ARTE SITE DE CULTURA

Mais que celebrar ou mesmo romantizar a vida de escritor, Paulo Scott nos traz uma representação irônica de Graciliano que mesmo diante das facilidades ofertadas e “(…) [d]a possibilidade de realizar o sonho de muitos escritores brasileiros: ficar um ano livre de pressões econômicas e disponível para se dedicar a seu ofício” (ALVES-BEZERRA, 2016) se depara com um misto de rejeição e desejo de viver de literatura, de alcançar a profissionalização no campo literário.
BLOG DO PROJETO LEITURAS CONTEMPORÂNEAS DA UFBA

Logo nas primeiras páginas de O ano em que vivi de literatura, tive a impressão de que Paulo Scott não escreveu o livro para ganhar prêmio. E isso é curioso: primeiro, porque narra o ano vivido por um escritor às custas de um grande prêmio literário; depois, porque é um romance que se faz ótimo nos detalhes da leitura – e, por detalhes, me refiro a algumas sequências nas escolhas dos títulos dos capítulos e, até mesmo, na insistência em algumas passagens que têm o mesmo propósito: mostrar que a trama anda, inclusive quando parece não andar.
E por que o livro fugiria da bula dos prêmios? Porque vai na contramão de todo o politicamente correto e a boa-mocice que, feicebuquianamente, tomaram conta do Brasa nos últimos anos. Mundo literário incluído, com louvor.
Scott fala de um escritor desencaminhado após o primeiro lugar no concurso literário com o maior prêmio do país. Com a promessa de viver de literatura, o protagonista abandona a carreira de professor universitário e passa todo o ano ocupado com fodelanças infinitas e com o vitrinismo de seus poemas, no Facebook. No percurso, que às vezes ameaça ser maçante, descobrimos que o ritmo do texto constrói o tempo do próprio narrador, sujeito tão dos nossos dias, refém dos slogans de um Brasil que estava dando certo e daquela armadilha – que costuma falhar no final – de viver do que se gosta.
Conforme acompanhamos o ano do protagonista, ainda que diversos elementos pareçam nos encaminhar para o lado contrário – talvez seja machista e egoísta -, alguma coisa no texto, possivelmente a circularidade e a redundância dos acontecimentos, que sublinham nossa impotência diante do mundo, acaba trapaceando a tentação de uma leitura reta e blasé, e estabelece uma azeda identificação com o personagem: machuca não saber perder.
De repente, me dei conta de que a solidão de Graciliano tinha muito da minha solidão, e de que o fardo sisífico de querer que as coisas terminem bem é a pior condenação que qualquer pessoa pode ter.
RODRIGO MACEIRA BLOG DE CULTURA

No romance de Paulo Scott, Graciliano é um escritor que foi professor de História, já com estágio de pós-doutorado, e que flerta, ao longo do ano de 2011, quando parecia que o Brasil tinha futuro, com a possibilidade de voltar à vida acadêmica. Esta foi relegada a segundo plano porque o sucesso editorial lhe permitiu tal luxo, pelo menos por um ano. A força das redes sociais – e a compulsão a elas – sustenta o historiador abstêmio, mas não o poupa das angústias existenciais que potencializam o narcisismo e fazem as vivissecção dos nervos contemporâneos.
JORNAL PENSAR A EDUCAÇÃO EM PAUTA

Livro vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura 2016.

Livro nominado ao Prêmio Oceanos 2016.

0 - ap - 0 - o ano

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São Paulo: Companhia das Letras, 2013

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Por qualquer ângulo que se tome, “Ithaca Road” merece atenção. Pela carreira do autor, Paulo Scott: experiente em conto, poesia e romance longo, aparece agora com uma novela enxuta e precisa. Pela linguagem: o texto flui otimamente, driblando certeiro as dificuldades impostas pela opção de não dar diálogos diretos, mas sempre no miolo do texto. Pelo arranjo narrativo: um narrador de terceira pessoa discreto, que dá a ver os personagens diretamente, quase como se não existisse uma consciência externa a eles, e que presentifica as ações de modo eficaz. Vale conferir ainda por um motivo mais sutil: livro encomendado da famosa e em certo momento polêmica coleção Amores Expressos, “Ithaca Road” corria o risco da artificialidade, na linha de documentário para turista. Mas não: a história se passa em Sidney, Austrália, com personagens locais, outros vindos de partes distantes do mesmo país e outros ainda estrangeiros imigrantes, tudo levado de modo justo. A personagem principal, Narelle, é neozelandesa, filha de mãe aborígine e pai inglês. Para somar outras variantes, seu namorado é um repórter investigativo austríaco em missão no distante Brasil. Toda essa circunstância é tratada de modo eficiente pela narrativa, mesmo nos momentos em que se faz necessário algum esclarecimento para o leitor brasileiro. E o enredo? Sim, existe, mas é até secundário: Narelle está em Sidney, desta vez para tomar conta do bar-restaurante de seu irmão, a pedido deste, que sumiu porque está falindo nos negócios. Matéria boa para desdobramentos policiais, que constituem força apenas lateral da novela. O centro mesmo está em Narelle e sua vida errática. No retrato dessa vida é que o livro ganha maior sentido. Narelle expõe o que talvez seja a cara da geração cosmopolita atual, internética até a alma, que pode viver em qualquer lugar e relacionar-se afetiva ou sexualmente com qualquer pessoa, sem sombra de preocupação com alguma ideia de construir futuro, para si ou para o mundo. Tudo fluido, num drama de baixo impacto, mas sentido amplo.
JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO

Aos poucos, numa prosa que parece crescer através de diálogos afiados e enredo cuja simplicidade sugere leituras sobre política de afetos, o autor revela desesperos contidos, emoções obstruídas por mecanismos de defesa nem sempre devidamente calibrados. Um romance em que o detalhe, a descrição minuciosa da cena, parece convocar o leitor a investigar o panorama geral de uma história de encenações.
JORNAL FOLHA DE PERNAMBUCO

Num primeiro momento, “Ithaca Road” pode parecer um romance juvenil e frívolo. Uma história de garotas fugindo das complexidades da vida adulta e de suas implicações. No decorrer da narrativa os contornos ganham novas proporções. A vida, até então um quebra-cabeça difícil de ser montado, solicita um sentido diferenciado. Aquilo que se apresentava sob as vestimentas da afetividade cai por terra e revela sua nudez. Sem os artifícios das aparências, a verdade não se sustenta, não possui dimensão suficiente para se constituir como o mais simples aconchego. A imagem é límpida: a velocidade da fragmentação da juventude não consegue sustentar um prolongado abraço.
JORNAL FOLHA DE LONDRINA

A protagonista é Narelle, uma neozelandesa mestiça que, no limiar dos 30 anos, não plantou nenhuma base fixa. Depois de quatro faculdades abandonadas e mil projetos que nunca saíram do papel, é chamada pelo irmão para substituí-la na administração de seu bar-restaurante. Chegando da Irlanda, ela precisa lidar com um negócio atolado em dívidas e um relacionamento que se resume a desencontros no Skype (o namorado, um jornalista investigativo, está no Brasil para cobrir crimes obscuros). O encontro com Anna, uma garota introspectiva que nunca sai de seu mundo, gera uma espécie de curto-circuito na protagonista. As duas constroem uma curiosa relação de amor e de amizade, com o autismo de Anna servindo de contraponto à dissipação de Narelle.
JORNAL O GLOBO

Mesmo pensado para ser independente dos outros livros dele, o romance se converte em outro elemento na arquitetura literária de Scott.
JORNAL O POVO (PARÁ)

É um romance em que o amor aos outros é ameaça constante ao amor-próprio, às fortalezas do amor-próprio, que vão ruir quando ela conhece uma menina autista, Anna. Há duas batalhas ao longo do livro: a psoríase, que ataca sua pele quando se sente ameaçada e afrontada; e justamente o fato que não há mais como fugir, e Narelle deve fincar pé, e permanecer.
JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO

É Narelle o centro, e o romance não é multifocal, mas deliberadamente disperso, flagrando uma série de interconexões e diálogos entre ela e seus amigos de Sydney – muitos deles pessoas também problemáticas com quem a protagonista mantém uma amizade cheia de arestas.
JORNAL ZERO HORA

Em tempos de muitas discussões acerca da literatura escrita no presente – apontada por especialistas como prática das desconstruções, das narrativas fragmentadas, voltadas para experiências pessoais e repletas de subjetividades -, a obra de Paulo Scott acena para uma outra via, menos acadêmica e muito mais despretensiosa. “Ithaca Road” parece servir como uma câmera filmadora, que registra de um mesmo ponto algumas cenas e foca, rapidamente, na personagem principal, sem mergulhar na protagonista. A obra de Scott bebe no clássico, dá pistas das escritas mais atuais e resulta em originalidade, mostrando que esse outro lugar que o autor procura ainda carece de maior atenção.
JORNAL TRIBUNA DE MINAS

A narrativa é curta, minimalista, delicada, mas também áspera como a pele da protagonista.
JORNAL GAZETA DO SUL (RIO GRANDE DO SUL)

Não se pode negar que a narrativa de Scott é original.
JORNAL GAZETA DO POVO (PARANÁ)

Trabalhar com fatos mostra o cuidado e a dedicação de Scott para com a história, refletindo tanto na estrutura quanto no polimento das frases que, além de ressaltar a maturidade do escritor, faz da obra uma leitura instigante. A lamentar apenas o acúmulo de referências locais que acaba por trazer um certo didatismo, comprometendo também trechos de diálogos com frases como “Você está parecendo comissária-chefe de cabine da Qantas Linhas Aéreas em final de carreira” e “Eu era uma cacatua cheia de palavras de ordem e convicções”.
Essa última frase é dita por Narelle numa conversa com Justin, um pernóstico corretor imobiliário a quem pede ajuda para desvendar pistas que podem revelar o paradeiro do irmão, decisão condenada por Trixie, produtora executiva de uma galeria de artes que funciona como sua melhor amiga, ainda que esse cargo tenha mais sentido para ela do que para Narelle que, em meio ao turbilhão de sentimentos, não consegue se apegar a nenhum. Jörg, com quem cultiva algo mais parecido com um relacionamento, é uma figura distante, comprometida com a profissão de jornalista investigativo. Ele está no Brasil, apurando uma história de crimes relacionados à extração de minério de ferro. Os dois pactuam declarações de afeto, ainda que a moça não veja problema em descumprir esse acordo com transas casuais. De fato, Narelle expõe suas emoções através da psoríase, doença que provoca a aspereza e sensibilidade exagerada da pele, em períodos de crise. Ela está encerrada em si, confinada nos limites insulares do apartamento em Ithaca Road, no olhar desterrado dentro de uma ilha. A guinada de rumo acontece no encontro com Anna, uma jovem com déficit de socialização, que busca em Narelle uma ponte para se reaproximar do pai, um pintor famoso. Anna se comunica melhor com o mundo por meio de desenhos; Narelle através de e-mails, SMS e Skype. Scott propõe um contraponto interessante ao sobrepor esses dois tipos de alienações. “Anna me fez bem. Temos coisas em comum. Acho que a única grande diferença é que estou mais preocupada em partir, e ela, ao modo dela, em chegar”, resume a protagonista.
Nesse ponto, o romance dá voz a uma personagem incidental que incorpora um sentido subliminar ao enredo. Alethea, alusão a Aléthea, significação de verdade e realidade para os gregos antigos, é uma escritora de dezoito anos, oriunda de um blog, que lança um romance fantasioso cultuado por uma legião de seguidores, cujo mote é a criação de uma máquina sensorial para adultos que reproduz sensações plenas, inclusive as sexuais, irregularmente acessada por crianças que, em sua grande maioria, passam a se sentir mais seguras e amadurecidas. Ao contar essa história, mesmo que breve, dentro da história principal, o livro volta a refletir sobre os dilemas da Geração Z, uma juventude que ascende e desmorona ídolos em questão de dias sem se culpar por isso, que agrega “uma afirmação de valores privados que corresponde a seu individualismo, e a aventura imaginária, que mantém, sem saciá-la, sua necessidade de aventura”, recorrendo novamente à análise de Morin. É como se a máquina imaginada por Alethea já existisse, de certo modo, transformando o amor num sentimento volátil que encontra, em planos virtuais, saídas para a carnalidade.
O reencontro de Anna e Narelle é ponto de partida para uma viagem, onde esse amor que se evapora, uma intenção de amor, desencadeará uma relação incomum e delicada. Anna também será a chave para Narelle abrir portas no labirinto arquitetado pela ausência do irmão e reajustar seu percurso, encarando um trauma do passado. Na relação entre Austrália e Brasil, inventada em Ithaca Road, Narelle encontra estabilidade e Scott, um livro notável.
AMÁLGAMA SITE DE CULTURA

Que o leitor tenha essa experiência de descobrir aos poucos um personagem não é algo incomum na literatura. Mais interessante em Ithaca Road é que a própria Narelle parece ir encontrando a si mesma nessas experiências. Ao retornar a Sydney, ao vivenciar novamente antigas situações, ao encontrar amigos que há muito não via, ela precisa lidar com as próprias transformações. Nesse sentido Narelle seria não tanto como a Penélope que espera, mas como o Ulisses que retorna à ilha.
POSFÁCIO SITE DE CULTURA

Talvez ainda mais corajoso do que narrar sob o ponto de vista feminino, e sob o ponto de vista de uma garota com Asperger, seja narrar sob o ponto de vista de uma garota com Asperger que se apaixona por outra garota.
SUPLEMENTO PERNAMBUCO

“Ithaca Road”, de Paulo Scott, poderia ter como subtítulo “Os aborrecimentos de Narelle”. Pois nesta curta história, ambientada em Sidney, na Austrália, acompanhamos como uma garota neozelandesa administra com estoicismo uns poucos, porém turbulentos, dias. O leitor jamais ficará sabendo (nem tampouco Narelle) os porquês dela abandonar suas atividades e trabalho numa galeria de arte para atender o pedido de ajuda de um de seus irmãos, Bernard (várias vezes citado no livro, mas nunca protagonista dele). Ao chegar a cidade ela descobre que Bernard saiu rapidamente da cidade, deixando a seus cuidados um restaurante que está sob investigação e eventualmente será liquidado judicialmente. O executor da falência a faz acreditar que ela é solidariamente responsável no processo e passa a assediá-la. Ao mesmo tempo em que Narelle administra questões da vida prática (além do executor da falência ela tem problemas trabalhistas, de logística e de compras para resolver), seu passado na cidade – sobretudo seus amores e relacionamentos afetivos – parecem assombrá-la de variadas formas. Ela conversa com uma antiga amiga e namorada (Trixie) sobre os dias em que moravam juntas; reflete sobre o pedido de casamento com um jornalista (Jörg) que não é capaz de aceitar; reencontra um amigo (Justin) que parece ainda apaixonado por ela e sabe coisas de seu passado que ela preferiria esquecer; pensa se deveria ou não entrar em contato com os pais e compartilhar com eles suas preocupações sobre os problemas do irmão; aceita sair com uma garota (Anna) que conhece num parque e que de alguma forma sabe algo das razões que fizeram seu irmão fugir da cidade. Gostei particularmente de como Scott faz sua protagonista lentamente preocupar-se menos com as questões puramente jurídicas do início da história para a partir da metade do livro concentrar-se nas questões mais abstratas e mundanas de sua vida pessoal. O livro trata de opções sexuais, feminismo, xenofobia, do modo de vida contemporâneo, escolhas e ritos de passagem da juventude para a vida adulta. Um escritor mais panfletário talvez usasse os temas deste livro para defender teses sociológicas, mas Scott alcança fugir desta armadilha. Nunca havia lido nada dele. Há algo nesse seu livro que lembra a ambientação daqueles romances sofisticados de Louis Begley, mas Scott parece não ter tanta fé quanto Begley na eficiência dos sistemas jurídicos. Interessante.
BLOG LIVROS QUE EU LI

O texto é leve e direto, sem adornos. Os diálogos não são marcados por parágrafos, aparecem dentro do fluxo narrativo de trechos mais extensos, sendo uma das qualidades da obra a contribuir com a fluidez. O livro é narrado na terceira pessoa, mas o narrador aqui não aparece como manipulador de destinos, ele apenas acompanha de perto as ações das personagens, deixando que os acontecimentos da própria narrativa se contem e se desdobrem. Um narrador que acompanha, não interfere. Assim, transformações significativas se vão dando ao longo da história por mudanças sutis e aos poucos, para então se precipitarem. Cada qual com suas idiossincrasias, as personagens têm dimensões internas bastante complexas, ao mesmo tempo em que seus mundos exteriores são feitos de padrões sociais facilmente reconhecíveis. Nelas, há uma espécie de precoce maturidade e independência, mas ainda assim algo de incapacitante. Estão em processo de formação, e dentro dele lidam com dissipações de identidade, cultura, família e afetos.
O que lemos é um livro jovem e de acesso fácil, embora não pouco profundo em sua capacidade de lidar com questões da contemporaneidade. Como que não podendo ser diferente, falando-se do contexto atual, Ithaca Road tem uma narrativa rica em buracos, vãos, subtramas que não se completam, não se resolvem. E o autor acerta, a meu ver, por não tentar resolvê-las.
(…) Neste livro de não muitas páginas sobre garotas/mulheres e em que o mundo global é amplo e esmaga, Scott, com uma prosa límpida e fluente, mostra-se um dos mais admiráveis narradores da literatura contemporânea brasileira. Ithaca Road, se não ajuda a compreender este século, sem dúvida o encara de frente.
MAPA REVISTA DE CRÍTICA LITERÁRIA

De même, dans Ithaca road, en entrant dans le quartier aborigène, Narelle se moque des limites sociales, elle appartient à une classe aisée, mais accompagne son ami dans ce quartier pauvre. Ainsi, l’épisode qu’elle a vécu avec les policiers qui l’ont violemment arrachée de ce lieu semble être une conséquence directe de cette transgression. Cet acte la met en face d’une réalité crue qui la dépasse. Mais contrairement à Donato, le malaise de Narelle ne se trouve pas dans l’hybridité de sa culture, plutôt dans un défaut de racines qui l’attacheraient solidement à la terre. Sa mobilité géographique, entre Océanie, Europe et Amérique a annihilé tout territoire et fait naître chez elle une grande désorientation : « Trinta anos e sem casa fixa, contando com a paciência das melhores amigas e dos pais, ocupando quartos extras, salas… Auckland, Sydney, Londres, Nova York, os quintos dos infernos […] » (Scott 2013:24). (…)
Narelle, quant à elle, souffre d’une absence de racines qui se traduit par une relative incapacité à nouer des relations sociales. D’ailleurs, elle partage dans le roman une amitié avec Anna, une jeune autiste avec qui elle dira partager de nombreux points communs. « Anna me fez bem. Temos coisas em comum. Acho que a única grande diferença é que estou mais preocupada em partir, e ela, ao modo dela, em chegar. » (Scott 2013 : 85). Tandis que l’une s’efforce de fuir le monde et les hommes, l’autre tente de surmonter ses difficultés afin d’y entrer pour trouver sa place. Cette volonté de se maintenir à distance des autres est née de l’expérience de Narelle à leur contact ; en effet son appartenance maori fait naître chez ses interlocuteurs un certain nombre de préjugés (…)
Nous constatons que le fait d’être métisse provoque une réaction due à ce qui est perçu comme une différence, presque une anormalité : elle provoque des réactions aussi diverses que la peur (elle est parfois expulsée ou accusée de vol) ou, au contraire, une attraction. Dans tous les cas, Narelle reste l’Autre et fait le choix de fuir et de n’être personne plutôt que de continuer à incarner l’Altérité. Le symptôme le plus évident de son malaise est sa maladie, le psoriasis, contre laquelle elle ne peut lutter, fluctuante comme son monde et ne lui laissant aucun repos (« Você não devia comer esse monte de gordura, Narelle. Não é bom pra sua psoríase… » (Scott 2012 : 12) ; « […] ; a psoríase está ali, quieta, ardendo, de volta»(Scott 2013 : 18) ; « Você sabe como as crises de psoríase me incomodam… » (Scott 2013 : 24) ; « […] (café não é nada bom quando se está passando por uma crise de psoríase) […] » (Scott 2013 : 99)
REVUE ELOHI (FRANÇA)

0 - ap - 0 - o ano

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Rio de Janeiro: Alfaguara, 2011

Berlim: Wagenbach, 2013

Lisboa: Tinta da China, 2014

Londres: And Other Stories, 2014

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Em seu novo romance, Paulo Scott atualiza com maestria o conflito mítico, de cores trágicas, entre pai e filho. Nesse processo, o ficcionista gaúcho criou um dos personagens mais interessantes da literatura contemporânea: o jovem mestiço Donato.
GUIA FOLHA DO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO

Um dos muitos méritos de Paulo Scott é ter ousado, em diversos níveis. Em um panorama literário em que muitos escritores, já não tão jovens assim, fazem questão quase programática de afirmar que a tradição literária brasileira não interessa, e em que muitos acadêmicos dão o “caso Brasil” como encerrado, Scott não se amedronta ao criar uma das vozes mais interessantes da prosa recente. E essa voz é justamente de uma índia guarani.
Maína é construída longe dos estereótipos do “bom selvagem” que nortearam nossa literatura e cultura. Maína fala. E sua voz não é vitimizada nem amparada nos mesmos valores do homem branco. O discurso da índia é repleto de elipses e silêncios, como quando diz: “Daqui a uns dias faço dezoito anos, e por mais que eu leia e me esforce, ainda não consegui entender o mundo onde vocês vivem, ainda não descobri a porta para entrar nele”. Maína talvez seja a personagem que mais segue seu próprio desejo. A descoberta do amor e do sexo, o abandonar-se ao presente, a preocupação em oferecer ao filho uma vida em tudo distinta da sua, todos esses são atributos de Maína, uma índia, como tantas outras, sem futuro. Não por acaso, o grande oferecimento de Paulo a Maína e sua família será uma casa pré-fabricada, uma possibilidade de ter algo seu, apropriar-se inclusive da própria vida.
A construção da casa, nunca habitada, e a separação do casal, uma das muitas passagens marcantes do romance, sinalizam para a impossibilidade da continuidade. E aqui não é possível esquecer-se de outra índia que, há séculos, também sacrificou-se — ou foi sacrificada? — para que o filho pudesse viver. Se para Moacir — o “filho da dor”, como escreveu José de Alencar em “Iracema” — estava reservado um futuro na Europa, para Donato, filho de uma índia sem terras e de um branco exilado, resta o percurso de volta. Tentar compreender seu constante desamparo, em um corpo marcado pelos traços indígenas, mas educado em colégios bilíngues.
Ao contrário de Moacir, Donato volta-se para o Brasil. O país que se recusa a ver será obrigado a encarar aquele sujeito desconcertante em sua luta solitária e justa. O final arrebatador do romance indica que estamos diante de um autor sem medo de ousar — e errar, como seus personagens — em sua construção narrativa. Mas indica também que a literatura ainda tem um grande percurso a seguir na compreensão dos múltiplos sujeitos, habitantes irreais de um Brasil recente.
CADERNO PROSA & VERSO DO JORNAL O GLOBO

Poderosíssimo (…) o maior enfrentamento ficcional com o campo ideológico nacional pós-ditadura, que encena por meio de uma mitologia do PT o esvaziamento político de toda uma geração anteriormente engajada.
JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO

Desde Maíra (1977), de Darcy Ribeiro, a questão indígena não aparecia como centro de um romance contemporâneo de projeção nacional. Nossa literatura se fez caminho para a distância, um caminho de tema e de linguagem. Com Habitante Irreal (Alfaguara, 2011), Paulo Scott retoma, em termos atuais, o dilema do índio, cada vez mais forçado a desposar o urbano. Trata-se de um romance forte, com viés político e amoroso, em que experimentação de linguagem (Scott é também poeta) e realidade não se excluem.
JORNAL GAZETA DO POVO (PARANÁ)

Habitante irreal parte da eleição de Olívio Dutra para a prefeitura de Porto Alegre em 1988. É quando, aos 21 anos, Paulo, o personagem, decide abandonar a militância após ir “da idealização completa a um cinismo sem igual, e, por fim, à melancolia escapista”. De quebra, deixa uma carreira no Direito para viver em Londres.
A ficção política, marca da literatura brasileira nos anos 1970 e 80, foi praticamente abandonada. Hoje é raríssima, quase sempre tema lateral. Reprodução, de Bernardo Carvalho, para ficar em um exemplo, pode ser uma chave para entender a confusão mental dos comentaristas de internet, mas não é propriamente um romance político.
O começo do romance de Scott, todavia, é. Há uma crítica dura ao PT, partido no qual a “gangue do segundo escalão” dá as cartas. Seus líderes são pusilânimes, e a eleição provoca uma corrida aos cargos. “Gente que até bem pouco tempo, sobretudo na hora do chopinho, fazia questão de dizer que estava ali única e exclusivamente para salvar o Brasil da exploração pelo capital.”
É marca de Scott o forte posicionamento político. Em evento recente em Porto Alegre, afirmou, sobre a esquerda e os fatos atuais: “A culpa é nossa. Os conservadores sempre foram assim. Nós que nos aliamos a eles”. Mas Habitante irreal não é só um romance político. É também uma belíssima obra sobre não pertencimento com uma desconcertante crítica à maneira como brasileiros lidam com os índios.
CADERNO DOC (SUPLEMENTO DE CULTURA DO JORNAL ZERO HORA)

Habitante irreal tem vários méritos. Um deles é a reconstituição fiel de um cenário, a Porto Alegre do final dos anos 1980 e início dos 90, não só pela ambientação detalhada — que este resenhista pode atestar por ter vivido in loco aqueles anos —, mas também pela recriação de uma lógica e de uma ética muito peculiares da época. O Brasil costurava sua redemocratização sob o fogo cerrado da hiperinflação, o que desestabilizava qualquer projeto político ou econômico duradouro. Vivia-se apenas o presente, pois não havia como prever um futuro. O dinheiro se multiplicava em contas remuneradas que mascaravam uma deterioração constante. Noutras palavras, vivia-se uma irrealidade que logo adiante cobraria sua fatura, e Porto Alegre apenas refletia o desconcerto geral do país. Para quem viveu essa época, será uma delícia reconhecer endereços, trajetos, ruas, bares, carros e outros tantos detalhes que, perdidos no tempo, aguardavam a hora de serem resgatados pela literatura.
Outro acerto foi trazer para a trama personagens índios e abordar sua relação com o universo urbano contemporâneo. O índio sempre teve um lugar de destaque na literatura sul-rio-grandense, desde os causos de J. Simões Lopes Neto, passando pelo monumental O tempo e o vento de Erico Verissimo e chegando aos contos de caráter pampiano de Sergio Faraco. Nessas obras todas, porém, ele é personagem da campanha, quase sempre a serviço dos mesmos brancos que lhe tomaram a terra ou de jesuítas que queriam convertê-lo e domesticá-lo como se fosse um animal selvagem. A família de Maína vive acampada às margens da BR 116 a alguns poucos quilômetros de Porto Alegre, para onde Paulo a leva depois de convencê-la a sair da chuva e aceitar sua ajuda. O envolvimento sexual dos dois é tratado com tal naturalidade que faz com que o leitor releve o fato escandaloso de Maína, aos quatorze anos, ainda ser quase uma criança quando Paulo a deflora. As diferenças culturais, sutilmente retratadas no romance, respondem pela façanha.
Também é digna de nota a ousadia de Scott em criar um entrecho que desafia a todo momento a verossimilhança, tão mirabolantes são as viradas na história e as situações vividas pelos personagens. A ficção não deve mesmo ter qualquer compromisso com a realidade, mas a tendência atual da literatura brasileira é buscar a estranheza no comezinho e não na fantasia. Nesse aspecto, Habitante irreal é uma fonte de surpresas que a mão firme do autor consegue harmonizar.
JORNAL RASCUNHO

Em tempos de política polarizada em dois partidos, cabe a outros espectros da sociedade – como a literatura – fazer um balanço do que ficou esquecido no processo de desenvolvimento do País. É exatamente isso que acontece em Habitante irreal (Alfaguara, R$ 40, 262 páginas), livro do gaúcho Paulo Scott. Funcionando como uma autocrítica geracional da atuação da esquerda brasileira, a obra é dos melhores lançamentos do ano, equilibrando com precisão as referências ao contexto histórico e as questões subjetivas de seus personagens.
JORNAL DO COMMERCIO DE PERNAMBUCO

Neste consagrado romance de 2011, traduzido para diversos países e vencedor do Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional, o autor gaúcho praticamente previu a derrocada do PT e a pungente necessidade de discussão das causas indígenas. A narrativa se desenvolve em dois eixos: um ex-militante petista que vai para Londres depois de seu malogrado relacionamento com uma garota indígena (onde se envolve com uma gangue especializada em arrombar e invadir propriedades privadas desocupadas) e a relação de Luísa e Henrique, um casal de professores e seu filho adotivo, o índio Donato. As histórias fundem-se para provar que definitivamente o Brasil é o país do passado.
JORNAL DIÁRIO CATARINENSE

“Habitante Irreal”, de Paulo Scott, está longe de ser um livro comum.
A história começa no final dos anos 80, em Porto Alegre, com Paulo, um jovem militante desiludido que se envolve com uma menina índia e chega, após uma longa série de desdobramentos, próximo ao nosso presente histórico, passando, nesse meio tempo, por Londres e por uma série de Estados brasileiros.
Em um movimento que lembra um pouco uma estratégia usual em romances de Ian McEwan (como “Reparação” e “Solar”), Scott estabelece, logo de início, um momento de grande intensidade que transforma tudo, e deixa, com engenho, que ele reverbere longamente nas vidas de todos aqueles que, de algum modo, tiveram ou viriam a ter algo a ver com o ocorrido.
JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO

“Habitante Irreal” é um livro sujo, tanto na temática quanto na linguagem. Fala de assuntos pouco explorados na nossa literatura, dos índios, de seus descendentes, da situação calamitosa em que se encontram, à margem na sociedade. Aliás, literalmente à margem, vivem, como Maína, em acampamentos na beira da estrada. Buscam, como Donato, uma identidade esfacelada.
O romance aborda esse universo com uma voz de dentro. Embora o narrador seja em terceira pessoa, sua visão é muito íntima dos personagens, muito próxima da realidade em que ocorre a história. Ao lado da temática surge uma narrativa suja, em que abundam excessos, descrições exageradas, parênteses insistentes, diálogos barrocos e, ao mesmo tempo, muito realistas. É justamente dessa linguagem excessiva que emerge o fulgor do livro de Scott.
O excesso é o movimento de transbordamento pelo qual o autor tende a sair de si, extravasar-se. Uma obra de arte limpa demais, concisa demais, redonda demais, termina, na maioria dos casos, por sufocar a vida. É nos pontos de sujeira que emerge o “efeito de real”, conceito criado por Roland Barthes para explicar aquilo que numa obra salta para fora, capaz de nos tocar, de nos levar perto do tão almejado real. Em outros termos, a sujeira é aquilo que escapa do controle do autor, aquilo que se impõe à mercê da sua vontade e, num certo sentido, o extrapola. Aquilo que num trabalho de edição até poderia ficar de fora, mas, de tão insistente, permanece. Porque sem a sujeira muitos livros seriam apenas histórias bem contadas. E o leitor precisa de mais do que isso, precisa do sangue que só “aquele” autor pode dar.
CADERNO EU & FIM DE SEMANA DO JORNAL VALOR ECONÔMICO

Não se julga livro pela capa, todo mundo sabe, este resenhista também sabe, então vamos tirar esta questão do caminho o mais cedo possível. Mas literatura também é produção de signos, e, intencionalmente ou não, boas pistas das qualidades de Habitante Irreal, romance do escritor gaúcho Paulo Scott, encontram-se na capa da belíssima edição lançada mês passado pelo selo Alfaguara, da Objetiva. Sobre um fundo branco indistinto, avulta-se um boneco sem cabeça, em close — uma antiga miniatura do conjunto de brinquedos Forte Apache, que opunha índios e cavalaria estadunidenses e fez parte da infância de quem hoje anda pelos 40 anos, pouco mais ou pouco menos. É essa a geração retratada no livro, a dos que foram jovens no fim dos anos 1980 e viram e sonharam com a retomada democrática no país.
A imagem da capa é ao mesmo tempo evocativa e perturbadora — a ausência de rosto do índio de brinquedo não apenas remete a um dos temas-chave do livro, sobre o qual falaremos adiante, como também parece fazer referência à mutilação dos sonhos otimistas acalentados na infância da redemocratização. (…)
Scott faz de Habitante Irreal um romance político, arrebatador, disposto a sair no mano a mano com a complexa realidade brasileira dos últimos 30 anos.
JORNAL ZERO HORA

Puro demais para a sordidez da Realpolitik, o protagonista não vê nada de errado, porém, em se envolver com uma índia adolescente que encontra na miséria à beira de uma estrada: afinal, estar apaixonado não era, para sua geração, o álibi moral supremo? O maior mérito da primeira metade do romance é a voz crível de Paulo, filtrada por um narrador em terceira pessoa que pouco descola dele: por cima do dado, aliás irrelevante, de que ela é parcialmente confessional, só um leitor com ouvido ou coração de lata negaria eficácia literária à sua sujeira medida.
Até aqui estamos no terreno de um sincero acerto de contas com os sonhos e desilusões de uma geração. Não seria pouco, mas o que faz de “Habitante irreal” um livro excepcional é o salto mortal que vem em seguida. Arrastados por um mecanismo mais complexo do que o início sugeria, abandonamos Paulo num autodestrutivo exílio londrino para mapear, entre diversos pontos de vista, as consequências da bagunça que ele deixou para trás ao fugir. Numa proeza técnica digna de Don DeLillo, que mereceria análise à parte, o romance se expande então para fora e ao mesmo tempo para dentro, englobando história e mito: revela-se um cruel espelho político-social de impasses coletivos e, no caminho oposto, um objeto que se quer tão xamânico quanto a bizarra máscara construída por Donato, o “índio mais não índio do qual já se teve notícia”, com o propósito de dar voz aos mortos.
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Como naqueles desenhos animados em que cavando no Ocidente você chega, por um túnel, ao Oriente, o Paulo do romance cava tão fundo (às vezes intencionalmente, às vezes por necessidade visceral) que alcança uma outra superfície, que não é sua, mas de todos que compartilharam os anos de sua juventude. A conexão entre os terremotos particulares e as mudanças tectônicas de momentos culturais é matéria prima comum e aceita da literatura, do cinema, da música e das artes em geral. O que destaca certas obras nesse tipo de empreendimento (me veio à cabeça Hanif Kureishi e Stephen Frears) é justamente a capacidade de ligar pontos entre camadas veladas dos personagens e do processo histórico sem precisar desvelá-las. Em Habitante Irreal eu sei que isso acontece, o processo é visível, mas não consigo mapear tais pontos (sem escrever uma monografia) tamanho é o mergulho interno que Scott promoveu.
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É o que perpassa e fundamenta todo o romance de Paulo Scott e que, afinal, constitui sua real importância e nos explica seus personagens. São estas escolhas, suas consequências, suas aspirações e seus resultados, enfim seus posicionamentos éticos determinam (ou induzem) suas respostas e o que sofrerão de volta. O retorno da realidade é o fruto de suas ações (ou a falta de). A incapacidade congênita de Paulo, ou sua perene falta de coragem, a busca de identidade de Donato, a militância pseudo-anarquista de Rener, impoem, ou ao menos tentam impor, sua marca na vida, em sua existência, mesmo quando se deixam simplesmente levar pelos acontecimentos. Mesmo o ato final de Maina transcende sua pessoa, pois resvala inexoravelmente em outros. São todos responsáveis, todos os personagens, mesmo que as respostas recebidas sejam quase todas dolorosas (o Brasil é um dos personagens, realizar eleições e disputar poder são suas atitudes, o Brasil moderno, seja qual for, é sua resposta). Somos todos responsáveis, mesmo que inconscientes ou inconsistentes, inclusive o autor. Inclusive o leitor.
“Habitante Irreal” é um manifesto, sim, mas não político (pelo menos, não somente político). É uma bela obra que levanta a questão do ser humano como ente ético e suas tremendas consequências, até mesmo a morte, que o acompanham.
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Um livro instigante, com uma boa estrutura, que consegue abarcar por completo os anos que atravessa, as mudanças pelas quais as personagens passam, registrando a época e, principalmente, a procura pela real identidade e preservação das origens, que no início já parecem não pertencer a lugar algum.
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O jeito como o autor conduz a obra é de uma maturidade literária jamais vista nessa geração de escritores, e lembra gente do naipe de Don DeLillo e Philip Roth. E a temática – isso de discutir a geração que atualmente está no poder no Brasil, e debater as relações delicadas com nossas raízes – é igualmente sem paralelo na nossa atual literatura. Scott sabe separar bem os estilos, e se resolve ser prosador poético em um capítulo, o faz distintamente da prosa geral do livro, que é densa e sem maiores floreios.
E essa também não é uma história bonita, muito pelo contrário. A literatura dele, comumente suja, chega atropelando em tabus e vira para lados que o leitor não necessariamente quer ler, mas é confrontado com um mundo sujo e amoral à força. E as conexões que o livro sugere são ainda mais assustadoras.
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Um livro um tanto profético em alguns aspectos. (…)
Mas a questão que é mais cara ao livro é a reflexão sobre a situação indígena no país. Não vem em forma de denúncia social mastigada. As reflexões do leitor se dão por uma análise das relações humanas na trama, que varia tanto de época e personagem quanto ao ponto de vista. Paulo Scott usa de uma linguagem simples, poética, e cheia de referências à cultura pop. Habitante Irreal também é visto como o livro que abriu os olhos da crítica para essa nova geração de escritores que estava se formando.
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Trato com as palavras, Paulo Scott – além de ficcionista, excelente poeta – também demonstrou ter. Sua poesia é portadora de um estranhamento extremamente particular, algo fora da pauta das facções deste gênero sem leitores e repleto de curadores da verdade; aquém dos malabarismos da vanguarda macaqueada, além do redimensionamento das fórmulas clássicas. É um poeta e sua voz, por mais insuportável que ela seja. É um poeta diante do seu erro. É alguém capaz de fazer versos como este: “entrega-lhe o alfinete, arregala bem os olhos / diz que chegou a hora de furar os balões”.
A vantagem deste romance, escrito em 6 anos e que passou por 4 versões, é que Paulo Scott nem derramou-se no experimentalismo de Ainda orangotangos, cujos ambientes líricos e herméticos por mais que rendam contos fabulosos, como “Rascunhos do diabo”, dificilmente, com uma mão como esta, afeita ao experimento, sustentaria, na base da vertigem, uma história longa, de fôlego. Por outro lado, a única tentativa de romance, até então, de Paulo Scott, Voláteis, de 2005, demonstrou competência narrativa. Algo ficou faltando, porém, entre a construção da narrativa, centrada muito na ação, com cenas bem ágeis, enfim, com respiração de romance policial, além de uma preferência pelo coloquial nos diálogos, postos, diretamente, entre aspas, sem interferência de narrador em terceira pessoa. O romance de estreia demonstrou que tínhamos, sim, um autor competente ali. A crônica de um assalto que tem tudo para dar errado, e dá, rendeu ótimos personagens: a fotógrafa argentina Lara, meio que tramando tudo sub-repticiamente, num contraponto à inconsequente Sabrina, e uma dupla “pobre-diabos”, Machadinho e Fausto – um quarteto com casais de gerações opostas, embora tenhamos um triângulo amoroso com o Fausto sendo a ponta de dois vértices.
A impressão que se tem, comparando Habitante irreal com a produção anterior de Paulo Scott, é a de que estamos diante de um grande salto. Mais do que um autor honesto e competente, que sabe contar uma história com cenas bonitas e bons personagens, temos um grande romance. A experiência calejada do narrador fez com que a história não lhe escapulisse das mãos, mesmo quando se dividiu em duas: Paulo em Londres, participando de invasões de apartamentos, caindo nas mãos da máfia dos libaneses, que lhe extorquem dinheiro a ponto de imaginarmos preso ali o resto de sua vida; Donato, uma criança obediente, vivendo em São Paulo, depois em lugares que sabe não serem seus, esforçando-se para ser perfeito, depois, ocupando, após a dupla orfandade, o lugar daquele a quem aprendeu a respeitar como pai, inclusive na cama da mulher dele.
As tentações para estabelecer vínculos entre a obra ficcional e a realidade são atiçadas pelo próprio Paulo Scott no texto escrito após o ponto final do romance, uma espécie de carta a uma amiga que inspirou a composição de um dos personagens e, aos mais atenciosos, na orelha de Voláteis, quando o autor diz que “perdeu algumas de suas vidas em Londres”. Todavia, como se espera de qualquer grande romance, Habitante irreal é bem mais do que isso. O real, convocado a comparecer aqui, representa uma expressão de verdade particular, vai ao largo da representação brutalizada, inaugural no primeiro Rubem Fonseca e repetida por diluidores de décadas seguintes.
REVISTA L.A.B. LITERATURA & CRÍTICA (PERNAMBUCO)

Com narrativa firme e estilo esmerado, Scott revisita em Habitante Irreal o que sobrou do espólio de uma geração que de repente se viu sem causa, crescendo em uma espécie de limbo político e existencial.
REVISTA VEJA / LIVROS

Literatura é um esforço formal coerente para expressar faltas e inadequações. São múltiplas as configurações desse esforço no romance Habitante Irreal, o segundo do gaúcho Paulo Scott, autor também do livro de contos Ainda Orangotangos. As descrições da miséria de populações indígenas, da política partidária inconsequente, da intolerância e da marginalidade produzem, na narrativa, imagens do descompasso entre os personagens e seu meio. Mas é sobretudo a costura do texto que faz a assinatura do autor e constrói a figura do ser humano como um animal inquieto e, em geral, pouco ajustado ao ambiente em que vive.
REVISTA BRAVO!

Scott fez questão de escrever um grande romance. Com um nível brutal de acertos, cumpre o que promete.
REVISTA APLAUSO

Com mão firme de artesão, Scott narra a história num ritmo épico de complexidade narrativa crescente e com clara ambição de conciliar os dados circunstanciais da história recente à luz dos mitos (Iracema) nacionais, evocando uma discreta esperança de um Brasil contemporâneo em paz com seus demônios do passado.
SUPLEMENTO SOBRE CULTURA DA REVISTA CIÊNCIA HOJE

Seu livro – Habitante Irreal – talvez seja o mais perturbador entre os cerca de cem novos títulos brasileiros que chegam ao mercado alemão.
Scott conta, de maneira implacável, a malfadada história de amor entre Paulo, um estudante de direito, e Maína, uma menina índia. O romance trata do racismo no Brasil e das condições desumanas nas quais famílias indígenas vivem no país atualmente: empobrecidos e à beira de estradas, reduzidos a pedintes ou apenas artesãos.
O livro também traça um panorama político do Brasil nas últimas décadas, passando pelas batalhas ideológicas dentro do Partido dos Trabalhadores (PT) nos anos 1980 até os últimos dez anos do partido na Presidência da República.
DEUTSCHE WELLE (NA MATÉRIA DESTAQUES EM FRANKFURT)

É nas ligações e suas derivas que o texto cresce e brilha, alimentando o conflito psicológico a muitas vozes que lhe serve de pano de fundo e onde os dramas de cada personagem se encontram com os contextos e os conflitos que atravessam o Brasil das últimas décadas, essa polis tropical onde progresso e riqueza vão competindo e esmagando os mesmos de sempre.
Ramificada, desconcertante e trabalhada com cuidado de ourives, a matéria deste romance não é diferente da matéria dos dias, nossos ou alheios, porque em cada perda, dúvida ou avanço às cegas estão os protagonistas criados por Scott e estamos nós todos, tropeçando no século XXI sem certeza sobre se o anterior terminou ou se o seu lastro por aqui anda.
REVISTA TIME OUT LISBOA

Um dos muitos aspectos interessantes é a transformação do conceito de colonizador e da sua relação com o colonizado. O colonizador, nesta obra, é a sociedade maioritária perante a minoria. É ela que vai espoliando essa minoria, presente no Brasil antes do “descobrimento”, dos seus direitos e da dignidade. (…)
“Habitante Irreal” são “vários livros”, quiçá polémicos, num só livro. E pertence, certamente, à melhor literatura.
JORNAL PÚBLICO (PORTUGAL)

O narrador constrói uma história de desilusão, sua e irremediavelmente geracional, do seu afastamento da acção de rua ou de bastidor, e ao contar essa mesma história, precisamente, faz do romance uma peça artística que nunca deixa de fora o essencial, o coração humano em busca de felicidade e descanso, a razão como ponto de partida para a revolta e denúncia de tudo o que bloqueia esses anseios ou desejos de cada um dos seus seres inventados, de nós. Parece um romance escrito sob a influência de técnicas cinematográficas ou de teatro, cada figurante de inesquecível presença, cada descrição e aparência deles uma abertura ao seu interiorismo ante os seus espectadores/leitores. (…)
O narrador olha o labirinto em que está presa a humanidade à sua volta, uns acomodados e felizes nos corredores das suas vidas, outros desesperadamente em busca de uma saída. Donato, criado e educado por outro casal, outrora activista e estudioso das questões do índio, acabam eles também por seguir as suas carreiras, a noção de sucesso, na academia ou mundo empresarial, a sua obsessão maior. A retórica política dos outros não passa disso, de palavreado politicamente correcto e oco. Entretanto, o que sobressai com a mesma força na prosa de Paulo Scott é um vasto e colorido mosaico da sociedade no seu todo. O recurso a um referencial cultural, popular e erudito, que marcou a nossa época transfronteiriça em anos recentes faz parte da imagística e mítica já tornada universal. Habitante irreal faz o leitor sair de uma questão localizada, regional ou nacional, e permanece, isso sim, numa poética de todo universalizada, numa poética de linguagens simultaneamente identificadas com os temas e subtemas da realidade brasileira e do que move e comove o coração humano em qualquer outra geografia.
JORNAL AÇORIANO ORIENTAL (PORTUGAL)

Vestido de um Outro imaginário e despindo-se de um Outro imaginado para ele, o rapaz acaba por virar figura mítica, o que o faz receber alguma atenção da mídia. Recorrendo à narrativa de Maína, Donato resgata o mito do fogo, que não é o fogo do sol, da gênese de um povo, mas do fogo que queima e destrói vida, que consome a tristeza de sua mãe. (…)
O veneno gerou Donato e o canto sagrado das labaredas o priva (ou o salva) de sua vida às margens da estrada. Tornando sua estória particular através do relato oral de um mito pessoal e hereditário em uma história coletiva, de conhecimento das massas pela televisão, Donato concretiza o mito na sua narrativa e isto lhe concede o estatuto de si mesmo como afirmação de um imaginário que lhe assombrara por anos. É interessante perceber que a passagem da narrativa para Donato acontece através de relatos orais da própria Maína, registrados em fitas gravadas por Luiza, mãe adotiva do mascarado. Assim que Donato aceita que pode ser reconhecido como o indígena que lhe restou e interessou ser, aceita também sua própria morte. Com a máscara colada ao rosto, no último diálogo com Paulo, confessa que pretende cometer suicídio no dia seguinte. O mito, neste caso, funciona como um catalizador para a compreensão não só de si mesmo, mas do Outro como antagonista da própria existência e, assim, de alguma maneira, então, de si mesmo como sintoma deste Outro e como sujeito desta relação. Também é interessante a escolha de Donato para o momento da revelação do mito de sua narrativa. Para Eliade, os mitos não podem ser narrados de maneira indiferente. As histórias falsas podem ser contadas em qualquer contexto, mas, por outro lado, “os mitos não devem ser recitados senão durante um lapso de tempo sagrado” (ELIADE, 1972, p. 12), apenas para um público certo e um momento predeterminado. Donato escolhe minuciosamente o momento para fazer seu protesto, esperando o tempo necessário para ganhar atenção por sua indumentária e pela causa que busca defender. (…)
Scott busca recuperar vozes e estórias que são ouvidas através de brados silenciosos para que seja possível pensar o retorno à tradição não apenas como nuance nostálgica da representação do indígena, mas como reconhecimento das mudanças do espaço do indígena dentro e fora de si. Nas narrativas analisadas, encontramos personagens que percorrem uma espécie de diáspora rumo ao entrelugar, a uma terceira margem na qual as literaturas em questão encontram-se com a finalidade equivalente de questionar a construção da identidade indígena e a fragmentação da mesma em sistemas de pensamentos particularmente únicos.
INTERFACES BRASIL/CANADÁ (ABECAN/UDESC/UFPel/USP)

Nowhere People is much more than just a “good story”. It’s a slippery novel which starts in a footnote stretching over eight pages, slides from one character’s perspective to another’s in the course of a paragraph and smears its restless present tense into glimpses of what’s going to happen next.
THE GUARDIAN (GRÃ-BRETANHA)

Going against the grain of the pervading trend toward neo-naturalism in contemporary Brazilian literature, and forsaking realism for fabulation, Paulo Scott’s Habitante irreal revisits and updates, through an astute combination of fictional and metafictional elements, the foundational narrative of the encounter between white and indigenous peoples, while, at the same time, chronicling the growing disenchantment of the generation that came of age with redemocratization. Skirting a definitive resolution, the novel presents alternative narratives of hopeful reconciliation and helpless disillusionment. The ambiguous ending produces an alienating effect, designed to actively engage the reader in the challenges and choices currently confronting Brazilian society as it struggles with its own identity and uncertain political future. Thus the novel self-consciously underscores that literature is not just representation, but also has a critical and possibly transformative function.
ROMANCE QUARTERLY – CRITICAL ESSAYS AN REVIEWS (ESTADOS UNIDOS)

Habitante irreal is a provocative novel about families and failures, bravery and cowardice, confrontation and abandonment, measure across the 20 years of Donato’s life. It fits into a genealogy of Indianist and indigenous literature in Brazil and its powerful content and inventive style have won it acclaim at home an abroad. By foregrounding the debate about indigenous people’s role and place in contemporary Brazil, it touches on a sore point at the heart of the nation’s identity, forged from colonial conquest and slavery to create a professedly racially harmonious and multicultural society in wich, however, indigenous caracters are practically voiceless and invisible, and, in extreme cases, driven to suicide as a form of protest. Instead of erasing them from history, silencing and ignoring them or eliminating them as collateral damage, like Iracema and Moacir, Scott’s novel shows how inextricably bound up with Brazilian cultural identity its indigenous citizens are.
LITERATURE AN ETHICS IN CONTEMPORARY BRAZIL (ESTADOS UNIDOS)

The text is constantly surprising, shocking even, yet absolutely compulsive, and it creates a mythology of its own that weaves together elements of Greek tragedy, indigenous mysticism and popular culture, in a carefully crafted palindromic structure that begins and ends with a life-changing roadside encounter. It is a disturbing narrative, but at the same time very funny, told in extremely long sentences and short chapters, deftly translated by Daniel Hahn, who has manage to capture the text’s humor. The present tense propels the narrative forward, as do the page-long lists and details (street, names, specific sensations, historical events), but is interrupted with frequent asides (in brackets) and footnotes, which seem to record dreams (nightmares) or the subconscious thoughts of the protagonists.
Cultures and classes clash in these two powerful yet subtle, beautifully written novels which leave the reader feeling uncomfortable, guilty, looking for someone to blame, and challenged to act.
WASAFIRI – MAGAZINE FOR INTERNATIONAL CONTEMPORARY WRITING

Scott soon pivots to view contemporary Brazil through a lens largely ignored by both the Left and Right.
It is a chance encounter, in fact, with a teenage Guarani Indian that shakes Paulo out of his torpor, rekindling a sense of passion and mission. Maína, who lives in a makeshift shelter by the side of the highway, represents a vision of a Brazil that Paulo hardly knows, and a state of injustice worthy of his commitment. Only things aren’t so clear-cut; and, after bringing her home with him, a series of violent confrontations — with Paulo’s friends, with the police, with her own conscience — will doom Maína and, years later, shape the life of their son, Donato.
Scott writes with a fitful, kinetic energy, even a certain fury, as his novel leapfrogs between Brazilian social classes — the indigenous dispossessed and the urban elite of Porto Alegre and São Paulo — with a chasm of mutual incomprehension between the two. The voices of Maína and, later, Donato, a street protester in search of his roots, are particularly rare and bold departures for Brazilian fiction. Elaborate sentences, mirroring the book’s social collisions, are often contorted with unexpected syntax and structure. Chapters vary between lengthy digressions and short, lyrical descriptions of Paulo and Maína’s (and a constellation of related characters’) inner struggles, with enigmatic, poetic titles like “whatever happens there’s always something left over to happen again” and “what’s to be done with the usual?” (The book’s translation, by Daniel Hahn, is in itself a wondrous feat.)
But I haven’t begun to give you a sense of the many directions Nowhere People will lead—it will, over the course of its three-hundred-odd pages, travel up and down the Brazilian coast and deeper into the Guarani psyche; veer off and take you on a tour of London squatter-anarchists; consider the precarious existence of Brazilians in exile, and the transformation and betrayals of the country’s modern class of governing Leftists (culminating in the era of President Lula da Silva). (…) Nowhere People is something of a messy hodgepodge of conflicting storylines, worldviews, and simmering revolts. But perhaps it’s the freshness of Maína’s perspective, and that of a lost and invisible segment of society with nowhere to turn, that helps make Scott’s novel such a revolutionary new work of Brazilian literature.
WORDS WITHOUT BORDERS (ESTADOS UNIDOS)

The result is a dizzying kaleidoscope of lives and places and stories, each arm messily spinning outward.
The novel’s heterogeneity is apparent even from the outside. Its four sections are named, respectively and entirely in lowercase, “whatever happens there’s always something left over to happen again”; “nobody reads the unexpected”; “spring”; and “what’s to be done with the usual?” By making these titles lowercased questions and phrases, rather than typical, capitalized descriptions, Paulo Scott leaves his readers without many signposts to orient themselves. This seems to be an intentional echo of the upheaval and rapid change that both Brazil’s government and its inhabitants experienced in the late ’80s and early ’90s. At one point Scott notes that “Paulo can’t forget the news, this particular piece of news, and still asks himself how it’s possible that some people should be so fixed in a single place.” For readers, making a home within the novel is a struggle, exactly as Paulo Scott intends — and yet there is enough to give readers hope.
For, above all, Nowhere People is a novel about home-making, about making proper homes out of mere places.
BROOKLYN RAIL (ESTADOS UNIDOS)

Nowhere People is a novel that, the moment you put it down, demands to be reread. Its unfocused narrative shifts are disconcerting, leaving the unsuspecting reader alienated and confused. Once it settles down, however, it is a novel that has a lot to say about a country that is on the brink of becoming one of the world’s powerhouse economies. In an attempt to remind people of the cost of this great leap forward, Scott draws our attention to the nowhere people of Brazil—the disenfranchised and the dispossessed, forced to eke out a living on the side of a highway.
A NOVEL APPROACH (REINO UNIDO)

Nowhere People is an uncomfortable and strangely brilliant social history of post-dictatorship Brazil, chronicling the young left’s fears after the honeymoon period of civilian rule, alongside the continuing prejudices against its indigenous tribes.
THE LITERATEUR (REINO UNIDO)

The feel of the story is that of ongoing transience. It is a journey towards a fairer country, a better understanding or simply towards self-knowledge; at least that seems to be the underlying motivation. The narrative is in a very literal sense driven forward through various car journeys and transfers. Indeed, that is how Paulo meets Maina in the first place, when he picks her up at the side of the road and gives her a lift home in his VW Beetle. There is generally a tremendous sense of motion as much of the story happens in cars, temporary accommodations, fast-food restaurants, bars and hotels. Soundbites of 80s and 90s pop hits are like wallpaper, anchoring the story in time.
There is a great sense of fluidity in form as well as content. I can’t remember ever having read a novel with so many brackets. Particularly in the beginning the sentences are rather complex and often meander, supported by relevant commas, to convey the feel of a stream of consciousness text. The shift in point of view is often quite subtle and unexpected. The handling of this is both original as well as reminiscent of the modernist masters. It seems Scott is keen to communicate the overwhelming emotions and unsettledness that preoccupy his characters.
Given that much of the story takes place in Elephant and Castle, London, as well as in Brazilian cities, there is no doubt where the priorities lie. Despite the title, this book is not an attempt to explain the life and traditions of the Guarani Indians but focuses on the challenge to find an appropriate and just rapport within a modern setting which is ultimately facilitated by the ruling class. There is a strong sense of authenticity as the intrinsic connection between the author and his protagonists shines through. Despite cool, polite detachment the story is not without blood and guts. In fact, political argument and passion are well balanced. Overall, this novel is highly engaging, heartfelt and beautifully written.
WRITERS HUB / THE BIRKBECK UNIVERSITY OF LONDON

A short, shocking, lyrical, and very modern novel, Nowhere People is one of 2014’s most exciting releases in any language. Following the relationship between a student radical and a semi-literate Indian girl, it’s a tragic modern saga of two generations of young Brazilians, but it’s also much more than that: bold, fragmentary, funny and sad, it reproduces the texture of contemporary life with irony and love, and deals with the last two decades of the twentieth century in a way that’s all about the twenty-first.
BOOK TRUST (REINO UNIDO)

Nowhere People is a provocative and interesting read, and feels timely given the focus on corruption and waste in Brazilian politics after the World Cup protests. Scott’s narrative moves effectively between the rich kids of Sao Paolo, the Guarani camps, and Paolo’s experiences in the squatting scene in London, and he also has a habit of switching perspective mid chapter, for example presenting Paolo’s subjective view of Maiana before turning to the omniscient, and revealing details which show how naïve Paolo’s view is. Maiana and Donato feel like autonomous characters rather than author’s puppets, though I felt the final sections featuring Donato’s protests were weaker than the main body of the novel. Overall, this is another great release from And Other Stories.
WORKSHY FOP (REINO UNIDO)

Upcoming Brazilian author Scott writes with assured power, offering a local story with universal resonance.
LIBRARY JOURNAL REVIEW

The prose is dense – most paragraphs go on for two or three pages – but it’s so well written that I found it thoroughly absorbing, full of amazing life-filled characters who I really felt I had come to know. (…)
So in the end this was a slow read, but worth taking the time for. I learned a little about Brazil, but probably more about the universality of youthful hope and despair evening out over time.
NOSE IN A BOOK (REINO UNIDO)

it is an innovative and emphatic j’accuse by a former lawyer and activist, a great example of the possibility of political engagement through literature, a reminder of one of the worst crimes in the history of mankind, the crime of displacing and annihilating indigenous people around the globe. Read this if you don’t mind crying.
ENGLISH PEN

It is powerfully but sympathetically written, with an engaging cast of characters. Another fascinating work from the crowd funded house of And Other Stories.
JOURNAL OF THE LAW SOCIETY OF SCOTLAND

Son bégaiement est le symptôme de l’impression constante de ne pas être à sa place. Il n’a pourtant pas grandi en marge, il a vécu dans les meilleurs quartiers et fréquenté les meilleures écoles. Mais la prise de conscience de sa double appartenance culturelle, qui arrive au moment où il quitte le campement de sa mère, ajoutée aux efforts faits pour oublier cette partie de son identité, débouchera sur une fracture. Deux personnalités distinctes, Espectro et Sujeito, Indien et non-Indien, naissent et le hantent en de longs monologues et dialogues intérieurs, des voix qu’il ne peut taire. Le premier représente la civilisation oubliée qui le hante, cet autre qui est pourtant lui, alors que le second incarne l’autre civilisation, celle au coeur de laquelle Donato a grandi, le sujet, le « je », celui dans lequel il se reconnaît. Le but d’Espectro est de vaincre Sujeito et ses réticences à laisser sa place à la civilisation amérindienne : « Espectro estava finalmente entendendo que não havia como prever o que se passava dentro da cabeça daquele sujeito : o Sujeito. Sujeito, ou era um desses perturbados, ou dono duma ingenuidade abismal. Espectro estava determinado a vencê-lo no cansaço » (Scott 2011 : 197). Cette fracture disparaîtra le jour où Donato retrouvera un élément manquant de sa construction, une de ses racines, son père. (…)
Paulo Scott fait partie de ces écrivains qui font de l’Amérindien le héros de leurs romans ; et en le plaçant dans la ville et en bousculant les normes d’écriture, il contribue à rompre le silence qui règne autour de ces communautés.
Mais nous pouvons constater que dans Habitante irreal, Paulo Scott met à mal une autre marge, celle qui concerne le territoire que constitue la page de roman. En effet, nous avons vu précédemment que lorsque Donato décide de renouer avec son identité amérindienne, deux entités spirituelles dialoguent en lui, Espectro et Sujeito. Or, ces échanges figurent en note de bas de page. Le même phénomène se produit au début du livre lorsque s’exprime Paulo, le père de Donato, et à la fin du livre, lorsqu’une voix anonyme décrit l’épisode qui peut-être est celui qui a donné naissance au roman. Or, la note, selon Gérard Genette, est « […] un énoncé de longueur variable (un mot suffit) relatif à un segment plus ou moins déterminé du texte, et disposé soit en regard soit en référence à ce segment. Le caractère toujours partiel du texte de référence, et par conséquent le caractère toujours local de l’énoncé porté en note, me semble le trait formel le plus distinctif de cet élément de paratexte […] » (Genette 321). Sa fonction est informative, critique ou elle peut être présente afin de renforcer la fiction. Mais ici elle ne semble entrer strictement dans aucune des catégories énoncées par Genette : elle incarne plus qu’un texte qui viendrait seulement donner davantage de légitimité à l’œuvre, elle en est une partie. Il s’agit là de ce que Michel Collot appelle la « spatialisation » du texte (Collot 31), l’exploration de ses limites et l’expérience d’une autre forme d’écriture. Cet envahissement soudain qui submerge la page traduit bien l’état d’esprit de Paulo, le père de Donato, que le lecteur découvre alors en plein questionnement existentiel suite à sa désillusion politique qui le contraint à chercher un autre chemin afin de pouvoir se réaliser. Ce décalage correspond également à l’état d’esprit de Donato, partagé, hanté et emporté par sa fracture intérieure. Mais ce mode d’écriture ne fait pas qu’ajouter du relief à la psychologie des personnages, il bouleverse aussi les conceptions admises de ce que doit visuellement être un roman. Cette déconstruction du texte par le texte lui-même, sa « déterritorialisation » puisqu’il quitte son territoire habituel, permet la prise de conscience des contraintes qui régissent l’écriture. Ainsi, Paulo Scott n’engage-t-il pas une double réflexion sur l’espace ? D’une part sur l’espace dédié au texte et sur l’écriture. D’autre part, sur l’espace d’un point de vue plus général, sur la définition de la périphérie et de la marge. Ce recours paratextuel et déstructurant met à mal la norme et pose la question de la difficulté d’être différent dans le monde contemporain qui s’efforce de tout délimiter jusqu’à la fragmentation. En effet, la toute-puissance de la norme a pour conséquence directe la peur de l’autre : « l’Autre est bizarre et différent, mais il est surtout ce qui n’est pas familier, pas facile à comprendre, en partie impénétrable, et imprévisible. » (Bauman 76) Ainsi, pour tenter de répondre aux dilemmes que posent ces romans peut-être faudrait-il bousculer l’ordre établi, tout comme Paulo Scott a bousculé les frontières de la page du roman.
REVUE ELOHI – PEUPLES INDIGÈNES ET ENVIRONNEMENT (FRANÇA)

Livro contemplado pela seleção da Bolsa Petrobras de Criação Literária 2009/2010.

Livro vencedor do Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional 2012.

Livro finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2012.

Livro finalista do Prêmio Jabuti 2012.

Livro finalista do Prêmio Bravo! 2012.

Livro nominado ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2012.

Livro finalista do Prêmio Jornada Literária de Passo Fundo 2013.

Livro nominado ao International Dublin Literary Award 2015/2016.

Livro finalista do Prémio Literário Casa da América Latina/Grupo Lena 2016.

Livro publicado na Alemanha sob o título “Unwirkliche Bewohner” pela Editora Wagenbach.

Livro publicado em Portugal pela Editora Tinta da China.

Livro publicado na Inglaterra sob o título “Nowhere people” pela Editora And Other Stories.

Livro com distribuição no Reino Unido e nos Estados Unidos pela Editora And Other Stories.

0 - ap - 0 - o ano

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Rio de Janeiro: Objetiva, 2005

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Ressalte-se, da agilidade narrativa, um uso preciso dos diálogos e um relato por vezes elíptico ou fragmentário, para se imaginar o quanto o livro, inspirado nas aspirações dos personagens, pode prender a atenção do leitor e roubar-lhe o fôlego.
JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO

Uma legítima narrativa noir brasileira, triste e contemporânea.
JORNAL GAZETA MERCANTIL

O romance dá a dica que o inferno não é o “outro”, mas o próprio “eu” dissolvido em niilismo e desassossego. O texto possui ritmo veloz e tom de roteiro. Há boas descrições e a narrativa tem marcas cinematográficas, com diálogos ágeis, parágrafos curtos que conduzem o suspense. A leitura não pede pausa, entra-se avidamente no script. Como num thriller, cujo desfecho surpreende, a trama de amor, traição e crimes fisga de imediato o leitor.
JORNAL O GLOBO

Paulo Scott é um exímio equilibrista da linguagem. Não deixa você tomar fôlego. A linguagem é fragmentada e ao mesmo tempo lírica, prendendo o leitor a cada linha.
JORNAL TRIBUNA DO NORTE

Scott entrecruza as vidas desajustadas de quatro personagens centrais, numa cidade sem nome cuja descrição imprecisa parece a de uma Porto Alegre situada numa realidade alternativa. (…) A trama policial se torna pretexto, embora conduzida com destreza até o fim.
JORNAL ZERO HORA

O tom marginal marca uma literatura brasileira contemporânea ágil e essencialmente urbana, repleta de referências ao universo pop; não abre mão do lirismo, mas não se entrega a um sentimentalismo fácil.
REVISTA BRAVO!

Os diálogos são poderosos.
REVISTA ÉPOCA

Intenso.
REVISTA ISTO É

O “voláteis” do título não se refere apenas às bebidas alcoólicas, bastante presentes, mas também define a fragilidade das relações interpessoais. Com um estilo alternando entre o sofisticado e o cru, Scott envolve o leitor ao contar a preparação para o roubo de uma joalheria.
REVISTA VIP

Livro vencedor do Prêmio Câmara Rio-Grandense do Livro / Jornal O Sul / Governo do Estado do Rio Grande do Sul na categoria autor revelação