O ano em que vivi de literatura

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Rio de Janeiro: Foz, 2015

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O escritor gaúcho radicado no Rio de Janeiro faz um cruel e engraçado retrato do mercado editorial brasileiro ao contar a história de Graciliano, que ganha o mais importante prêmio literário do país e vê as portas da hipocrisia e da política literária se abrirem. É a mais sincera e possível sátira deste país que vive de aparências, inclusive na literatura.
JORNAL DIÁRIO CATARINENSE

O Ano Em Que Vivi de Literatura é um livro que encanta o leitor a partir de seu título. O achado – irônico – que dá nome ao romance do gaúcho Paulo Scott tem o mérito de produzir curiosidade com o paradoxo de “viver de literatura”. Ao longo da narrativa, percebe-se que os termos “viver” e “literatura” vão sendo matizados e relativizados, até o ponto em que já se tiver percebido que Graciliano, o escritor que protagoniza a obra, mal vive e mal escreve.
“Viver de literatura”, no caso do livro de Scott, é dilapidar, ao longo de um ano, um prestigioso e polpudo prêmio literário (de R$ 300 mil) alcançado com um pequeno romance, publicado por uma editora menor, à revelia do editor da editora comercial com a qual Graciliano tem contrato. Obtido o prêmio e de posse do dinheiro, o protagonista gaúcho, de cerca de 40 anos de idade, solteiro, sem filhos, tem a possibilidade de realizar o sonho de muitos escritores brasileiros: ficar um ano livre de pressões econômicas e disponível para se dedicar a seu ofício. Graciliano vende o carro e um imóvel no Rio Grande do Sul, para comprar um apartamento em Botafogo, no Rio de Janeiro, onde se estabelecerá. Paulo Scott, portanto, enfrenta-se com seu tempo, e cria, de modo bastante verossímil, o universo de um artista brasileiro ainda numa era de prosperidade econômica – o romance se passa em 2011 – diante de seu métier.
Esse escritor, Graciliano, que ao longo de todo um ano vive à margem da sociedade dita produtiva, o que tem a nos mostrar sobre ela? Quais agruras o herói de nosso tempo revelará? Vejamos: ex-professor universitário de História, Graciliano, de posse de seu capital, entrega-se à boemia e a pequenas viagens decididas por impulso, a bares e festas. É curiosíssimo como ao longo das 251 páginas que compõem o romance, Graciliano, não lê um só livro e pouco escreve. Por outro lado, é ativo nos bares e, principalmente, no Facebook, onde alimenta sua persona de escritor outsider, através de poemas e frases de efeito, depois de cujas publicações, tal qual criança ansiosa, aguarda curioso a repercussão. Assim conhece mulheres, que lhe rendem encontros sexuais, narrados com recursos da literatura pornográfica.
As peripécias sexuais do protagonista se intercalam com relações familiares ou amorosas de sua etapa gaúcha, viagens decididas sempre à última hora, reencontros com a família, a ex-noiva, os ex-colegas etc. E, entre as imagens do fauno gaúcho e do jovem professor emigrado, mostra-se ao leitor um homem imaturo e hedonista. Assim o vemos sendo achincalhado pelo editor, pelo pai, por leitoras, pela secretária contratada pelo editor para fazê-lo escrever, por alguma parceira. A cena eloquente que ilustra esta derrocada surge na página 180 quando à maneira de uma duplicação da tela de seu computador, sozinho, Graciliano masturba-se diante do espelho.
Paulo Scott logra dessacralizar a figura do escritor marginal, que se mostra, em seu romance, com tintas de subcelebridade, e possibilita que nos coloquemos também uma incômoda pergunta: em que medida se acredita ainda que haja alguma verdade na ficção que é ser escritor? No prestígio dado por uma matéria num caderno literário, num prêmio, numa vernissage?
JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO

Recheado de bom humor, insolitamente picante, O Ano em que Vivi de Literatura é, mais que nada, impiedoso e zombeteiro. Se num primeiro momento ainda nos é permitido rir das situações enfrentadas pelo protagonista, da sua falta de responsabilidade, do seu espírito errático e desorganizado, de seu bloqueio criativo, pouco a pouco percebemos que tais elementos são sintomáticos de um cenário que reflete a típica angústia pós-moderna.
Na rotina do Graciliano celebridade, do escritor assumido, há o peso da aceitação pública, da ansiedade pelas notificações de curtidas nas redes sociais, dos questionamentos sobre carreira, sobre saúde financeira, sobre lucidez, velhice e família. Em um dos capítulos, o personagem anuncia no Facebook que vai transformar em protagonista de seu próximo romance aquele que depositar R$ 5 mil em sua conta bancária. Em uma cidade de atormentados, ainda há quem o responda.
O personagem de Scott, risível, ridículo em suas ações, parece bem humorado enquanto é observado como outro. Quando percebemos que Graciliano também somos nós, a graça desaparece.
JORNAL O POVO (FORTALEZA)

O novo romance de Paulo Scott é mais uma prova de que ele não gosta de conforto. Depois de contos, romance e novela que, cada um, já enfrentavam desafios os mais variados – de simular por escrito a fala de gente de poucas letras a fazer um jovem de classe média interagir profundamente com uma índia, por exemplo –, agora ele se propôs um problema que pode até parecer banal, mas que resulta muito interessante.
Estamos falando de O Ano em que Vivi de Literatura (Editora Foz). Centro do enredo: um escritor contemporâneo, Graciliano, vence o maior prêmio brasileiro, e isso o leva a abandonar o emprego (era professor universitário de História) e sua cidade (Porto Alegre) para realizar o sonho de viver de literatura, agora no Rio de Janeiro. Graciliano tem a tarefa de entregar novo romance para sua editora. Não consegue escrever nada, embora saiba improvisar briefings a granel
O livro podia, então, ser apenas uma nova variação da manha bastante autocentrada, comum na nova geração de escritores brasileiros, de falar sobre como sofre o escritor, como é difícil escrever, etc. Mas não.
O caso é que Graciliano vive numa espiral de sexo das mais intensas (o romance pode bem ser lido como literatura erótica, quanto aos procedimentos e personagens, com cenas muito boas), enquanto vai-se enrolando cada vez mais em seus impasses, dos quais amigos tentam tirá-lo – um sugere que faça concurso para outra universidade, outro oferece a ele uma posição no Ministério da Educação, agora que o governo parece estar com força e tino para fazer as reformas pelas quais tanto tempo esperaram. (O romance é também um comentário, que agora soa agônico, sobre os anos de bonança recentes, com pleno emprego e afluência social, a que não faltou nem mesmo um pequeno boom literário.)
O rumo dessa história vai sendo levado adequadamente, até que surgem dois novos elementos no enredo – a tensa relação do protagonista e narrador com seu pai, e a angústia pelo sumiço de sua irmã. Mais sobre isso, só lendo.
O livro tem o encanto de fazer observações inteligentes, e de vez em quando muito originais, sobre os relacionamentos narrados, amizades com sexo, ex-amores reencontrados, amigos fugidios, tudo isso. Da mesma forma, há todo um encanto nas sacações do narrador sobre as três cidades em que transcorre a ação, principalmente o Rio, mas também São Paulo e Porto Alegre. Certa mulher carioca, por exemplo, é descrita como tendo uma “tristeza contida, uma tristeza que era praticada só pelos cariocas”. A linguagem é da família david-foster-wallace, a mesma de Daniel Galera, e também aproveitada de modo produtivo: minúcia descritiva, que não evita reiterações que, parecendo ser, não são triviais, mas poéticas. Leitura boa, romance inteligente, que fala mais do que aquilo que se dá a ler no enunciado. Por exemplo: a sensação do narrador sobre o tempo socialmente glorioso em que vive, que não o empolga, mesmo que seus amigos estejam no poder. Há por tudo um desconforto, que às vezes é meramente nominal, porque o furor sexual meio que compensa as frustrações, mas às vezes ganha importância emocional compatível com a força que o autor soube inscrever na história.
CADERNO DOC (SUPLEMENTO DE CULTURA DO JORNAL ZERO HORA)

Graciliano é o protagonista do sensacional “O Ano em que Vivi de Literatura”, do escritor porto-alegrense Paulo Scott. O personagem, também gaúcho, já era um autor de certo renome quando se instalou no Rio de Janeiro. A obtenção do prêmio, no entanto, funciona como o “abre-te sésamo” para o clubinho da cena cultural carioca, na qual desfila em meio a uma fauna constituída de jornalistas, editores, produtores de cinema e de conteúdo para a internet, escritores e colunistas de jornal. (…)
Scott, detentor de uma prosa afiada e de ritmo contagiante, empresta de si referências para seu protagonista, compondo um retrato fiel do meio literário: o mise-en-scène, os interesses furtivos dos agentes e dos editores, as “panelinhas”, a relação com a imprensa, as editoras que só enxergam o escritor quando premiado num selo menor, o mimimi dos autores que se acham menosprezados, o prestígio calculado pelas curtidas no Facebook. A figura do autor também não escapa dessa radiografia, desse “Paris é uma festa” com doses cavalares de a(lu)cidez. De como são suspeitas as oficinas que ensinam a escrever, de como o autor se utiliza de traumas do passado para alimentar sua literatura. Entre relacionamentos passageiros e ex-relacionamentos duradouros, Graciliano deixa um rastro de incompletudes que simboliza a incapacidade de terminar seu novo livro. Scott aglutina esses vazios para construir um romance sobre a solidão, sobre a permissividade do escritor, denotada na melhor de todas as frases para descrevê-lo, infelizmente inapropriada para um jornal de família como esse. “O ano em que Vivi de Literatura” tem valor semelhante ao da novela premiada que o mobiliza: “um livro certo na hora certa”.
DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ

Novo romance de Paulo Scott expressa a solidão carioca.
JORNAL O GLOBO

No livro, Graciliano recém-papou o prêmio literário mais polpudo do país, atraindo interesse — editorial, sexual — e expectativa para sua próxima publicação, que ele, presa da arapuca armada pelo sucesso, não consegue escrever.
A figura de linguagem aqui é a hipérbole: em Graciliano, a mistificação dos episódios supostamente típicos da vida de uma celebridade — as facilidades amorosas, as rivalidades e o embate boêmio levados às últimas consequências — são tingidos pelo ridículo da estilização romantizada de algo — oferta de royalties, volúpia inesgotável, fígado inoxidável — que, se acaso existir na forma hiperexagerada da narrativa, é para poucos autores em um país cujo índice de leitura é de 1,7 livro per capita ao ano.
ILUSTRÍSSIMA (DO JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO)

As cenas de sexo do início do livro são atraentes, mas vão perdendo a força na medida em que a trama avança. Não se trata de um problema da narrativa, mas de um acerto: o leitor vai perdendo o interesse na contínua repetição das relações superficiais e fugazes do personagem, vivenciando com ele a sensação de esvaziamento emocional e incapacidade de estabelecer relações mais aprofundadas. (…)
Muitas vezes tolo, fútil e superficial, Graciliano é também sedutor e capaz de angariar a simpatia de qualquer um – inclusive do leitor. É um personagem complexo, sobre o qual se baseia a força de O Ano em que Vivi de Literatura, um livro que revela a solidão e os diferentes modos de escondê-la nos nossos dias.
JORNAL ZERO HORA

Vale conferir. É um retrato ácido do mundo das letras – que, de resto, não é muito diferente de outros mercados.
JORNAL O DIA (RIO DE JANEIRO)

Além das relações fluídas e frias com amigos e mulheres, os conflitos familiares alimentam a angústia de Graciliano. Paulo Scott desenha muito bem uma outra peça que colabora na formação do personagem: a relação tensa que o escritor tem com o pai. Os diálogos entre os dois ocupam poucos trechos do livro, mas o incômodo que esse vínculo familiar provoca no protagonista está sempre presente. (…)
Além do próprio enredo, o ritmo da narrativa ajuda a dar o tom desse período conturbado da vida de Graciliano: um tempo que passou acelerado, sem folga. Mas a angústia dele é a angústia de todo mundo, um sentimento que talvez não seja exclusivo de quem escreve.
JORNAL RASCUNHO

Ousado, seu romance de 2015 traça um corajoso e cruel retrato da vida literária brasileira da última década.
JORNAL O BELTRANO

O protagonista do livro é o jovem escritor Graciliano que ganha trezentos mil reais do maior prêmio do país em termos financeiros. O engraçado é que a vida de Graciliano no ano em que recebe esse prêmio não está ligada diretamente com a literatura, mas aos problemas da vida real, sem o romantismo que esse fato poderia ocasionar. Ir por essa premissa fantasiosa seria um grande equívoco e bastante simplório para investigar algo muito maior, que é a vida do escritor sem ilusões e clichês. Scott resolveu mostrar toda a problemática em torno do reconhecimento do artista e de como é sofrível a existência de quem resolve abdicar de tudo para produzir ficção. “O maior prêmio em dinheiro não era necessariamente o mais respeitado”, atesta o protagonista.
A vida de Graciliano é cheia de altos e baixos, com momentos (a maioria deles) de solidão e angústia e muitos excessos de álcool e sexo . Ele é um cidadão comum, tem as dificuldades de todos, mas acabou de ganhar trezentos mil reais, logo gastos com a compra de um apartamento. Muitas mulheres passam pelo seu caminho, e aos poucos ele vai perdendo o controle da própria vida por algum tempo. Não consegue, inclusive, escrever o novo romance aguardado pela editora. O ano que ele vive, teoricamente, de literatura, é o mesmo que, ironicamente não consegue produzir nada. Paralelamente a este fato, o período não deixa de ser bastante movimentado, e tumultuado, para Graciliano. O pai está bastante doente e a irmã saiu do convívio da família e resolveu desaparecer sem deixar nenhum contato.
O painel feito por Paulo Scott é claramente reconhecível, principalmente para os escritores. As críticas ao universo literário são bastante interessantes, sincera até demais. Graciliano, que de maneira alguma é alter-ego de Scott, pode ser qualquer autor brasileiro. Não existe glamour na profissão, ele deixa claro, muito menos reconhecimento para a maioria dos ficcionistas. Em determinado ponto do romance o personagem fala que ganhar o maior prêmio do país não quer dizer quase nada, pois no próximo ano outro vai ganhar, e assim sucessivamente. Uma verdadeira roda gigante. Altos e baixos, com o perdão do trocadilho. “Num momento como aquele, pro meu azar, o prêmio dum monte de grana que já nem existia mais na minha conta bancária e o perfil n’O Globo, definidor absoluto de status e prestígio na cabeça dum monte de gente do Rio de Janeiro e do Brasil, se materializava num grandíssimo monte de porra nenhuma e não serviam para porra alguma, mesmo”. (…)
A forma que Scott impôs ao texto é bastante interessante. Acompanhamos de perto tudo o que acontece. A intimidade do personagem, inclusive, é utilizada com maestria, com cenas de sexo (várias), por exemplo, convincentes. A prosa d’O ano em que vivi de literatura é limpa, ágil e de qualidade indiscutível, que flui sem dificuldades por conta do uso da primeira pessoa. Existe um refinamento sem concessões na prosa de Scott. O livro, acima de tudo, é muito bem escrito, comprovando a maturidade do autor, que já publicou oito livros, entre eles dois de poesia.O ano em que vivi de literatura consegue fazer um recorte muito sincero, até pelo fato de ter sido escrito por um brasileiro, que não está na lista dos mais vendidos, não ganha muito dinheiro com a venda dos livros, mas vive pela, e para, literatura. Só quem escolheu seguir por esse caminho pode entender.
Graciliano é bastante popular nas redes sociais, sempre escrevendo pensamentos e poemas. Mas aí está a grande sacada, pois tudo é muito artificial nos ambientes virtuais. Explorar esse aspecto no romance foi também uma boa ideia, principalmente agora que essas ferramentas têm uma importância muito grande para a divulgação de qualquer coisa. “Ela deu uma risadinha e disse que eu era uma pessoa diferente do que aparentava ser no Facebook, que no início daquele nosso encontro eu tinha passado a impressão de ser um sujeito bem austero, ainda mais austero e complexo do que aparentava ser no Facebook”. Lógico que, mais uma vez, Scott não apenas reproduziu o universo virtual que todos conhecem, ele usou da ironia para mostrar como tudo é tão frágil e mentiroso nesses ambientes.
SITE ANGÚSTIA CRIADORA

Paulo Scott utiliza parágrafos longos onde registra muito bem tanto o fluxo de consciência de seu protagonista, seu mundo interior e suas dúvidas, quanto os diálogos exaltados que Graciliano mantém com os bizarros personagens que inventou. Ele descreve com sarcasmo tribos urbanas e literárias, hipsters e acadêmicos, jornalistas e blogueiros, editores e cineastas, todos iguais em suas ilusões, superficialidade, ufanismo, incomunicabilidade e inevitável decadência. O ritmo do livro e o protagonista lembram muito “La dolce vita” (de Fellini) e “Celebrity” (de Woody Allen). Assim como nesses dois filmes assistimos o falso glamour de certos ofícios e vidas (as de jornalista ou de cineasta, respectivamente), “O ano em que vivi de literatura” oferece ao leitor um antídoto à ambição de escrever e tornar-se um ícone literário. O livro termina reproduzindo um encontro casual num elevador de hotel, mas agora Graciliano é apenas cortês, não o escritor sedutor e envolvente que encontramos no início do livro, já parece imunizado do torpor que o cegava, parece ter se apercebido antes que os demais os desdobramentos inevitáveis de uma vida de auto-engano.
BLOG LIVROS QUE EU LI

Em alguma medida, o livro expõe ainda as entranhas do mercado editorial brasileiro.
BLOG HOMEM DE VÍCIOS ANTIGOS

É difícil escolher um ponto de partida para falar da nova obra de Paulo Scott. Pensei em começar fazendo um contraponto sobre escritores que optam por certo isolamento e a nossa realidade de superexposição; considerei falar dos que recusaram prêmios literários em nome da coerência de sua carreiras ainda que os prêmio literários tenham, sim, as suas virtudes; cogitei iniciar pelo cenário pouco animador da prática de tietagem que se sobrepõe à prática de leitura, ou, ainda, por como as redes sociais, positiva para a circulação artística, têm nos tornado escravos da nossa própria egolatria. O ano em que vivi de literatura, romance recém-lançado pelo escritor gaúcho-carioca, é sobre esta experiência caótica da literatura na contemporaneidade, pequena engrenagem de um caos maior: do tempo, da sensibilidade.
REVISTA CAFÉ COLOMBO

Um romance em que a vida aflora com toda intensidade.
SUPLEMENTO PERNAMBUCO

Comecei a ler o ano em que vivi de literatura, do Paulo Scott, num café. Alguns livros pra mim não funcionam na rua, mas preciso testar. Esse me tirou a rua de fora pra me construir dentro da cidade inteira do Rio de Janeiro e também Porto Alegre, que não conheço e passei a conhecer do jeito que o livro me dá. Também São Paulo quando o Graciliano-protagonista pega uma motinho emprestada e acaba por aqui. Eu nunca vi São Paulo assim. Nem as mulheres que o Paulo (o escritor, não a cidade) descreve, inéditas pra mim e ao mesmo tempo, incrivelmente imagináveis. O livro todo é scott-puro, um jeito único de fazer ficção. O Facebook, por exemplo, é mais um personagem do livro, e que relacionamento difícil o do protagonista com a rede social. Mas do Facebook se desconecta. E as pessoas? E o bar? A história é de um escritor que ganhou uma bolada num prêmio literário e fica um ano vivendo da grana, o que parece divertido, mas no livro muita angústia. A distância do pai, eu já vivi, não só em quilômetros. E o amor escorrega pelos cantos, desce as escadas em fuga, não só o amor na família, o amor de casal, as mulheres entram e saem da pica do protagonista e o que fica além do gozo que escorre pelo ralo durante o banho? A solidão, que Solidão.
OITAVA ARTE SITE DE CULTURA

Mais que celebrar ou mesmo romantizar a vida de escritor, Paulo Scott nos traz uma representação irônica de Graciliano que mesmo diante das facilidades ofertadas e “(…) [d]a possibilidade de realizar o sonho de muitos escritores brasileiros: ficar um ano livre de pressões econômicas e disponível para se dedicar a seu ofício” (ALVES-BEZERRA, 2016) se depara com um misto de rejeição e desejo de viver de literatura, de alcançar a profissionalização no campo literário.
BLOG DO PROJETO LEITURAS CONTEMPORÂNEAS DA UFBA

Logo nas primeiras páginas de O ano em que vivi de literatura, tive a impressão de que Paulo Scott não escreveu o livro para ganhar prêmio. E isso é curioso: primeiro, porque narra o ano vivido por um escritor às custas de um grande prêmio literário; depois, porque é um romance que se faz ótimo nos detalhes da leitura – e, por detalhes, me refiro a algumas sequências nas escolhas dos títulos dos capítulos e, até mesmo, na insistência em algumas passagens que têm o mesmo propósito: mostrar que a trama anda, inclusive quando parece não andar.
E por que o livro fugiria da bula dos prêmios? Porque vai na contramão de todo o politicamente correto e a boa-mocice que, feicebuquianamente, tomaram conta do Brasa nos últimos anos. Mundo literário incluído, com louvor.
Scott fala de um escritor desencaminhado após o primeiro lugar no concurso literário com o maior prêmio do país. Com a promessa de viver de literatura, o protagonista abandona a carreira de professor universitário e passa todo o ano ocupado com fodelanças infinitas e com o vitrinismo de seus poemas, no Facebook. No percurso, que às vezes ameaça ser maçante, descobrimos que o ritmo do texto constrói o tempo do próprio narrador, sujeito tão dos nossos dias, refém dos slogans de um Brasil que estava dando certo e daquela armadilha – que costuma falhar no final – de viver do que se gosta.
Conforme acompanhamos o ano do protagonista, ainda que diversos elementos pareçam nos encaminhar para o lado contrário – talvez seja machista e egoísta -, alguma coisa no texto, possivelmente a circularidade e a redundância dos acontecimentos, que sublinham nossa impotência diante do mundo, acaba trapaceando a tentação de uma leitura reta e blasé, e estabelece uma azeda identificação com o personagem: machuca não saber perder.
De repente, me dei conta de que a solidão de Graciliano tinha muito da minha solidão, e de que o fardo sisífico de querer que as coisas terminem bem é a pior condenação que qualquer pessoa pode ter.
RODRIGO MACEIRA BLOG DE CULTURA

No romance de Paulo Scott, Graciliano é um escritor que foi professor de História, já com estágio de pós-doutorado, e que flerta, ao longo do ano de 2011, quando parecia que o Brasil tinha futuro, com a possibilidade de voltar à vida acadêmica. Esta foi relegada a segundo plano porque o sucesso editorial lhe permitiu tal luxo, pelo menos por um ano. A força das redes sociais – e a compulsão a elas – sustenta o historiador abstêmio, mas não o poupa das angústias existenciais que potencializam o narcisismo e fazem as vivissecção dos nervos contemporâneos.
JORNAL PENSAR A EDUCAÇÃO EM PAUTA

Livro vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura 2016.

Livro nominado ao Prêmio Oceanos 2016.

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