Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo

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0 - ap - 0 - o ano

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São Paulo: Companhia das Letras, 2014

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A lírica do autor é poderosa. Sua verve é uma construção, uma lição de como se fazer poesia. E nada escapa desse fazer poético. Sejam “títulos protestados” ou mesmo “advérbios de pequeno corpo”. Em tudo, no mais inusitado que o leitor possa pensar, o autor encontra uma simbiótica relação. E se alguém duvidar ele ainda vai descortinar “cento e dezesseis e uma índia fantasma”.
Com dinheiro ou sem, com esqueite novo ou velho, Paulo Scott vai fazendo versos como quem brinca com as palavras, como se subordinasse o sentido delas a seu bel prazer. Ele usa a palavra como ofício, seus poemas transmitem essa intimidade que é partilhada com o leitor.
E isso é uma constante em todo o livro. Não existem altos e baixos, os versos de Scott são bem construídos, é o contrário de alguns livros de poemas que começam bem e vão perdendo o fôlego até se diluírem, os poemas do autor conseguem manter a tensão e o diálogo com o leitor desde o início e, o melhor de tudo, quando fechada a última página fica na boca aquele desejo de querer mais. E com urgência, assim como urgentes são os belos versos desse livro.
JORNAL DE ALAGOAS

Encontrei muitas coisas nos poemas de Paulo Scott, coisas que duplicam e ampliam minha própria imaginação. A idéia, por exemplo, de que o estranho já não basta: “ser apenas estranho / com idéias estranhas / já não é suficiente”. A poesia pede mais – busca a abertura de uma fenda através da qual o leitor não apenas se jogue, mas se encontre.
A simples ideia do estranho – de tornar-se único e surpreendente – pode transformar o escritor em um “monstro inabalável”. Numa festa, o poeta encontra uma menina que lhe “diz que você está se tornando / tão patético quanto as personagens / que inventou”. Encontro aí uma mensagem: um escritor deve desconfiar de si mesmo. Não aceitar-se facilmente e, ao mesmo tempo, se suportar: “jogue fora os atalhos / tente não culpar mais ninguém”. Em outras palavras: sustentar a própria voz. Por mais que trate de outros temas, um poeta está, todo o tempo, falando de sua própria escrita. Essa é a parede intransponível: aquela que separa o aparente – o transitório – do que sempre esteve ali e a poesia, enfim, revela.
Um escritor precisa ter coragem não só para reconhecer os próprios limites, mas para enfrentar suas falsificações. “Enquanto você fala de filhos e minto que virei escritor”, escreve Scott, com absoluta lucidez a respeito da precariedade da invenção. Fazer literatura é seguir o próprio caminho. “Voltar à vida, mesmo que doa”, ele diz em outro poema. São pistas, são indícios que, como um aflito detetive, eu recolho aqui e ali, lutando para recompor as trilhas por onde o poeta passou. A escrita não é sempre a pegada – muitas vezes ela se esconde entre as pegadas, isto é, nas entrelinhas. Para chegar até elas, é preciso, primeiro, libertar-se do circunstancial. Escreve Scott: “espera-se do poeta que lave as mãos / antes e depois de utilizar o mictório / e não se distraia com o mau estado temporário / dos azulejos”. Não só expelir (micção), mas também saber livrar-se daquilo que o afeta e distrai. “Espera-se do poeta que seja pedra / e, sendo pedra, aguarde à mesa até que outros; cansem desse jogo de equipes que é a solidão”. Ser pedra: lacrar-se em si mesmo. Carregar aquilo que é e disso fazer sua palavra. Espera-se que o poeta “não tenha necessidade de ser bonito”. Que suporte a própria face e isso lhe baste.
O poeta – Scott nos adverte – não trabalha com o perfeito, mas com o imperfeito. “As vezes desço até a floricultura da cobal do Humaitá / atrás de crisântemos bordos em vasos plásticos / escolho os que estiverem menos consistentes”. Gosta de acompanhar o desfazer das flores até que elas sequem, “assumindo a leveza dos chás”. Nessa decomposição – da aparência, da afetação, da soberba – se abre um roteiro que leva o poeta de volta a si. “Se o destino é respirar / pode-se dizer então / que o estado inicial / é de afogamento”. É a partir do caos (do desfazer-se) que um poeta encontra sua forma. Encontra sua palavra. Só assim pode suportar, enfim, o estado de estranheza. “Me olha, pai, não sou veneno”, ele pede.
Em outro poema, Scott fala de uma menina que passa longo tempo na janela exibindo uma cartolina na qual expressa um desejo: “personagem para o teu romance”. “Às vezes, ela usa um apito”, de tal forma a agita o desejo de se transformar em objeto de imaginação. Em imagem. Desesperançado, o poeta escreve: “é sua maneira de registrar / (se ao menos já houvesse livro) / que nosso dia se perdeu”. Perdeu, ou ganhou? No espaço que antecede a escrita – ali onde a fantasia ferve – se guardam os grandes alimentos. Ali um poeta se encorpa. Ali, antes mesmo da primeira palavra, ele se faz poeta.
CADERNO PROSA & VERSO DO JORNAL O GLOBO

O lirismo é mesmo uma das marcas do novo livro. A busca pelo amor se repete ao longo das páginas, mas não há espaço para idealizações.
JORNAL ZERO HORA

Switch varial flip é a junção de duas manobras, o switch varial e o switch flip. Trata-se de saltar sobre o esqueite e, no movimento do salto, com os pés, virar a base ao contrário. É preciso harmonizar salto e virada, de modo a equilibrar o corpo no retorno à prancha de madeira. Em “Mesmo Sem Dinheiro Comprei Um Esqueite Novo”, Paulo Scott retorna à poesia, que marcou duplamente a sua estreia literária em 2006, com “A Timidez do Monstro” (Objetiva) e “Senhor Escuridão” (Bertrand Brasil).
E volta a ela num salto equilibrado à base. Não que tenha andado muito longe, apesar do sucesso de sua prosa – especialmente os romances “Ithaca Road” (Cia. das Letras) e “Habitante irreal” (Alfaguara). Ainda em 2011, Scott reapareceu na cena da poesia com “O Monstro e o Minotauro”, edição artesanal editada pela Dulcinéia Catadora, em parceria com o cartunista Laerte Coutinho.
Mas sua estreia poética, na verdade, deu-se bem antes, em 2001, quando assinou com o pseudônimo Elrodris o livro “Histórias Curtas para Domesticar as Paixões dos Anjos e Atenuar os Sofrimentos dos Monstros”, editado pela Sulina (…)
Dividido em duas parte, “Mesmo Sem Dinheiro Comprei Um Esqueite Novo” traz um poeta sem amarras, e aqui não nos referimos apenas à opção pelo verso livre, mas a um lirismo que parece desafiar o leitor, diante de um autor que se pergunta: “O que de tudo ficará?/ literatura?/ para que diabos serve a literatura quando você está feliz e tem amor?/ (amor é algo que não se completa)”.
“Alocado” na chamada Geração 00, Scott volta-se sobre sua própria trajetória sem medo de errar, invertendo a base. “Onde haverá outro poeta, olho e me confundo tentando reedificar entre as roupas de candidato alguma disciplina de atleta”. Paulo Scott salta.
JORNAL A TARDE (SALVADOR)

A estranheza tornou-se um dos maiores e melhores adjetivos do escritor Paulo Scott. Seus tipos bizarros povoam elogiadas obras, como os contos de “Ainda orangotangos”, publicados em 2003, e o romance “Habitante irreal”, de 2011. Ainda que em uma linguagem em que tal recurso exige esforços mais complexos, o escritor também alcança a peculiaridade de personagens e situações em sua poesia, atividade das mais constantes em sua carreira.
JORNAL TRIBUNA DE MINAS

Propriamente, não há fim único na poesia de Scott: ela é a todo (e a qualquer) instante revolta e revelação. (…)
A impressão ao ler os poemas (e também os contos de seu dissonante Ainda orangotangos) é que aquilo que precisava ser dito foi retirado propositalmente pelo autor. As vísceras estão à mesa – e talvez sejam as suas. Ler Paulo Scott é buscar as pequenas partes de um quebra-cabeça minucioso, e o cubo, uma vez montado, nos remete ao princípio de tudo, energia vital da poesia: o estranhamento da palavra.
NONADA SITE DE CULTURA

As peças do livro giram em torno de uma brutalidade do cotidiano, do esgotamento da vida que levamos. Há alguns poemas trágicos, como A garota medalha, uma história que vai crescendo dramaticamente com o avançar dos versos – “a garota medalha/ teve oito empregos diferentes durante esse ano/ mas este ano não acabou”. Mas há também uma beleza das coisas simples, como no poema Lã de vidro, em que o narrador fala sobre uma menina que mora no edifício em frente ao seu, e que aos sábados a vê dançar pela janela, esperando que ele olhe; e quando olha, há um cartaz escrito: “personagem para o teu romance”.
HOMO LITERATUS SITE DE CULTURA

Demorei um pouco para comprar, porque, talvez por ser poesia, nem todas as livrarias o tinham disponível. Mesmo assim consegui comprar e ler o livro antes do fim do ano passado e, devo dizer, foi uma das minhas leituras favoritas no ano (mesmo que eu tenha terminado a dita leitura ontem, por volta das sete da noite).
Não foi a primeira coleção do Paulo Scott que eu li. Já havia lido também a primeira, creio eu que em 2014 também, mas logo no começo, chamada A timidez do monstro (Objetiva). Por isso, a primeira coisa que me ocorreu durante a leitura de Mesmo sem dinheiro foi a diferença no estilo. Antes que eu me estenda, vou avisar que o livro foi dividido em duas partes. A primeira, chamada Livro Um, é onde a diferença mais notável está. O Livro Dois, embora carregue alguns dos aspectos do Livro Um que diferenciam essa coleção da primeira, tem uma linguagem muito mais aproximada.
Diferentemente de A timidez do monstro, o Livro Um de Mesmo sem dinheiro tem em cada poema uma narrativa, levemente abstrata, mas não muito. Paulo Scott desenvolve personagens em seus poemas, cenários que podem ser reais ou fictícios, sempre breves e precisos que, por trás da linguagem poética, contam uma história muito maior. E eis o motivo de eu sempre ter evitado resenhar livros de poesia. Os parágrafos a seguir desse texto estarão cheios de suposições sobre as intenções do autor que eu, nunca tendo falado com ele, não teria como saber. A questão é que, e isso é uma opinião pessoal minha, um poema, como qualquer outra obra de arte, quando tornado público deixa de ser do autor. Na prática, lógico que o texto segue pertencendo ao autor, estou falando do significado dele. Um leitor nunca lê a poesia do poeta, ele lê sua própria poesia nas palavras do poeta. Ele vai entrar no texto e investir no texto os seus próprios sentimentos, mesmo que isso não faça tanto sentido. Por isso, tudo que virá a seguir não pode de forma alguma ser considerado correto, objetivo ou imutável. O leitor pode, deve, ter impressões diferentes, tão diferentes quanto as reais intenções, se existentes, do poeta.
Enquanto em A timidez do monstro a linguagem parece ser propositalmente hermética, formada de associações líricas entre as palavras, mais focadas em som que em sentido, o Livro Um de Mesmo sem dinheiro segue um caminho direto, quase doméstico. (…)
Os personagens são esposas, maridos, filhos, gente encarando a idade adulta com insegurança, as crises do não estar sendo tão produtivo quanto se cria que seria quando jovem. A ansiedade está presente em ambas as coleções, mas em Mesmo sem dinheiro ela parece ter mais foco, ou pelo menos um foco diferente. Digamos que a mente por trás da poesia seja a mesma, mas o filtro poético pelo qual as palavras passaram para se tornarem o que vieram a ser é outro.
BLOG DELIRIUM SCRIBENS

Una poesía tortuosa, oblicua, que sin embargo refleja la verdad desquiciada de todos nosotros. Universal.
REVISTA BRECHA (URUGUAI)

Livro vencedor do Prêmio Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) 2014.

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