Ithaca Road

.

0 - ap - 0 - o ano

.

São Paulo: Companhia das Letras, 2013

.

Por qualquer ângulo que se tome, “Ithaca Road” merece atenção. Pela carreira do autor, Paulo Scott: experiente em conto, poesia e romance longo, aparece agora com uma novela enxuta e precisa. Pela linguagem: o texto flui otimamente, driblando certeiro as dificuldades impostas pela opção de não dar diálogos diretos, mas sempre no miolo do texto. Pelo arranjo narrativo: um narrador de terceira pessoa discreto, que dá a ver os personagens diretamente, quase como se não existisse uma consciência externa a eles, e que presentifica as ações de modo eficaz. Vale conferir ainda por um motivo mais sutil: livro encomendado da famosa e em certo momento polêmica coleção Amores Expressos, “Ithaca Road” corria o risco da artificialidade, na linha de documentário para turista. Mas não: a história se passa em Sidney, Austrália, com personagens locais, outros vindos de partes distantes do mesmo país e outros ainda estrangeiros imigrantes, tudo levado de modo justo. A personagem principal, Narelle, é neozelandesa, filha de mãe aborígine e pai inglês. Para somar outras variantes, seu namorado é um repórter investigativo austríaco em missão no distante Brasil. Toda essa circunstância é tratada de modo eficiente pela narrativa, mesmo nos momentos em que se faz necessário algum esclarecimento para o leitor brasileiro. E o enredo? Sim, existe, mas é até secundário: Narelle está em Sidney, desta vez para tomar conta do bar-restaurante de seu irmão, a pedido deste, que sumiu porque está falindo nos negócios. Matéria boa para desdobramentos policiais, que constituem força apenas lateral da novela. O centro mesmo está em Narelle e sua vida errática. No retrato dessa vida é que o livro ganha maior sentido. Narelle expõe o que talvez seja a cara da geração cosmopolita atual, internética até a alma, que pode viver em qualquer lugar e relacionar-se afetiva ou sexualmente com qualquer pessoa, sem sombra de preocupação com alguma ideia de construir futuro, para si ou para o mundo. Tudo fluido, num drama de baixo impacto, mas sentido amplo.
JORNAL FOLHA DE SÃO PAULO

Aos poucos, numa prosa que parece crescer através de diálogos afiados e enredo cuja simplicidade sugere leituras sobre política de afetos, o autor revela desesperos contidos, emoções obstruídas por mecanismos de defesa nem sempre devidamente calibrados. Um romance em que o detalhe, a descrição minuciosa da cena, parece convocar o leitor a investigar o panorama geral de uma história de encenações.
JORNAL FOLHA DE PERNAMBUCO

Num primeiro momento, “Ithaca Road” pode parecer um romance juvenil e frívolo. Uma história de garotas fugindo das complexidades da vida adulta e de suas implicações. No decorrer da narrativa os contornos ganham novas proporções. A vida, até então um quebra-cabeça difícil de ser montado, solicita um sentido diferenciado. Aquilo que se apresentava sob as vestimentas da afetividade cai por terra e revela sua nudez. Sem os artifícios das aparências, a verdade não se sustenta, não possui dimensão suficiente para se constituir como o mais simples aconchego. A imagem é límpida: a velocidade da fragmentação da juventude não consegue sustentar um prolongado abraço.
JORNAL FOLHA DE LONDRINA

A protagonista é Narelle, uma neozelandesa mestiça que, no limiar dos 30 anos, não plantou nenhuma base fixa. Depois de quatro faculdades abandonadas e mil projetos que nunca saíram do papel, é chamada pelo irmão para substituí-la na administração de seu bar-restaurante. Chegando da Irlanda, ela precisa lidar com um negócio atolado em dívidas e um relacionamento que se resume a desencontros no Skype (o namorado, um jornalista investigativo, está no Brasil para cobrir crimes obscuros). O encontro com Anna, uma garota introspectiva que nunca sai de seu mundo, gera uma espécie de curto-circuito na protagonista. As duas constroem uma curiosa relação de amor e de amizade, com o autismo de Anna servindo de contraponto à dissipação de Narelle.
JORNAL O GLOBO

Mesmo pensado para ser independente dos outros livros dele, o romance se converte em outro elemento na arquitetura literária de Scott.
JORNAL O POVO (PARÁ)

É um romance em que o amor aos outros é ameaça constante ao amor-próprio, às fortalezas do amor-próprio, que vão ruir quando ela conhece uma menina autista, Anna. Há duas batalhas ao longo do livro: a psoríase, que ataca sua pele quando se sente ameaçada e afrontada; e justamente o fato que não há mais como fugir, e Narelle deve fincar pé, e permanecer.
JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO

É Narelle o centro, e o romance não é multifocal, mas deliberadamente disperso, flagrando uma série de interconexões e diálogos entre ela e seus amigos de Sydney – muitos deles pessoas também problemáticas com quem a protagonista mantém uma amizade cheia de arestas.
JORNAL ZERO HORA

Em tempos de muitas discussões acerca da literatura escrita no presente – apontada por especialistas como prática das desconstruções, das narrativas fragmentadas, voltadas para experiências pessoais e repletas de subjetividades -, a obra de Paulo Scott acena para uma outra via, menos acadêmica e muito mais despretensiosa. “Ithaca Road” parece servir como uma câmera filmadora, que registra de um mesmo ponto algumas cenas e foca, rapidamente, na personagem principal, sem mergulhar na protagonista. A obra de Scott bebe no clássico, dá pistas das escritas mais atuais e resulta em originalidade, mostrando que esse outro lugar que o autor procura ainda carece de maior atenção.
JORNAL TRIBUNA DE MINAS

A narrativa é curta, minimalista, delicada, mas também áspera como a pele da protagonista.
JORNAL GAZETA DO SUL (RIO GRANDE DO SUL)

Não se pode negar que a narrativa de Scott é original.
JORNAL GAZETA DO POVO (PARANÁ)

Trabalhar com fatos mostra o cuidado e a dedicação de Scott para com a história, refletindo tanto na estrutura quanto no polimento das frases que, além de ressaltar a maturidade do escritor, faz da obra uma leitura instigante. A lamentar apenas o acúmulo de referências locais que acaba por trazer um certo didatismo, comprometendo também trechos de diálogos com frases como “Você está parecendo comissária-chefe de cabine da Qantas Linhas Aéreas em final de carreira” e “Eu era uma cacatua cheia de palavras de ordem e convicções”.
Essa última frase é dita por Narelle numa conversa com Justin, um pernóstico corretor imobiliário a quem pede ajuda para desvendar pistas que podem revelar o paradeiro do irmão, decisão condenada por Trixie, produtora executiva de uma galeria de artes que funciona como sua melhor amiga, ainda que esse cargo tenha mais sentido para ela do que para Narelle que, em meio ao turbilhão de sentimentos, não consegue se apegar a nenhum. Jörg, com quem cultiva algo mais parecido com um relacionamento, é uma figura distante, comprometida com a profissão de jornalista investigativo. Ele está no Brasil, apurando uma história de crimes relacionados à extração de minério de ferro. Os dois pactuam declarações de afeto, ainda que a moça não veja problema em descumprir esse acordo com transas casuais. De fato, Narelle expõe suas emoções através da psoríase, doença que provoca a aspereza e sensibilidade exagerada da pele, em períodos de crise. Ela está encerrada em si, confinada nos limites insulares do apartamento em Ithaca Road, no olhar desterrado dentro de uma ilha. A guinada de rumo acontece no encontro com Anna, uma jovem com déficit de socialização, que busca em Narelle uma ponte para se reaproximar do pai, um pintor famoso. Anna se comunica melhor com o mundo por meio de desenhos; Narelle através de e-mails, SMS e Skype. Scott propõe um contraponto interessante ao sobrepor esses dois tipos de alienações. “Anna me fez bem. Temos coisas em comum. Acho que a única grande diferença é que estou mais preocupada em partir, e ela, ao modo dela, em chegar”, resume a protagonista.
Nesse ponto, o romance dá voz a uma personagem incidental que incorpora um sentido subliminar ao enredo. Alethea, alusão a Aléthea, significação de verdade e realidade para os gregos antigos, é uma escritora de dezoito anos, oriunda de um blog, que lança um romance fantasioso cultuado por uma legião de seguidores, cujo mote é a criação de uma máquina sensorial para adultos que reproduz sensações plenas, inclusive as sexuais, irregularmente acessada por crianças que, em sua grande maioria, passam a se sentir mais seguras e amadurecidas. Ao contar essa história, mesmo que breve, dentro da história principal, o livro volta a refletir sobre os dilemas da Geração Z, uma juventude que ascende e desmorona ídolos em questão de dias sem se culpar por isso, que agrega “uma afirmação de valores privados que corresponde a seu individualismo, e a aventura imaginária, que mantém, sem saciá-la, sua necessidade de aventura”, recorrendo novamente à análise de Morin. É como se a máquina imaginada por Alethea já existisse, de certo modo, transformando o amor num sentimento volátil que encontra, em planos virtuais, saídas para a carnalidade.
O reencontro de Anna e Narelle é ponto de partida para uma viagem, onde esse amor que se evapora, uma intenção de amor, desencadeará uma relação incomum e delicada. Anna também será a chave para Narelle abrir portas no labirinto arquitetado pela ausência do irmão e reajustar seu percurso, encarando um trauma do passado. Na relação entre Austrália e Brasil, inventada em Ithaca Road, Narelle encontra estabilidade e Scott, um livro notável.
AMÁLGAMA SITE DE CULTURA

Que o leitor tenha essa experiência de descobrir aos poucos um personagem não é algo incomum na literatura. Mais interessante em Ithaca Road é que a própria Narelle parece ir encontrando a si mesma nessas experiências. Ao retornar a Sydney, ao vivenciar novamente antigas situações, ao encontrar amigos que há muito não via, ela precisa lidar com as próprias transformações. Nesse sentido Narelle seria não tanto como a Penélope que espera, mas como o Ulisses que retorna à ilha.
POSFÁCIO SITE DE CULTURA

Talvez ainda mais corajoso do que narrar sob o ponto de vista feminino, e sob o ponto de vista de uma garota com Asperger, seja narrar sob o ponto de vista de uma garota com Asperger que se apaixona por outra garota.
SUPLEMENTO PERNAMBUCO

“Ithaca Road”, de Paulo Scott, poderia ter como subtítulo “Os aborrecimentos de Narelle”. Pois nesta curta história, ambientada em Sidney, na Austrália, acompanhamos como uma garota neozelandesa administra com estoicismo uns poucos, porém turbulentos, dias. O leitor jamais ficará sabendo (nem tampouco Narelle) os porquês dela abandonar suas atividades e trabalho numa galeria de arte para atender o pedido de ajuda de um de seus irmãos, Bernard (várias vezes citado no livro, mas nunca protagonista dele). Ao chegar a cidade ela descobre que Bernard saiu rapidamente da cidade, deixando a seus cuidados um restaurante que está sob investigação e eventualmente será liquidado judicialmente. O executor da falência a faz acreditar que ela é solidariamente responsável no processo e passa a assediá-la. Ao mesmo tempo em que Narelle administra questões da vida prática (além do executor da falência ela tem problemas trabalhistas, de logística e de compras para resolver), seu passado na cidade – sobretudo seus amores e relacionamentos afetivos – parecem assombrá-la de variadas formas. Ela conversa com uma antiga amiga e namorada (Trixie) sobre os dias em que moravam juntas; reflete sobre o pedido de casamento com um jornalista (Jörg) que não é capaz de aceitar; reencontra um amigo (Justin) que parece ainda apaixonado por ela e sabe coisas de seu passado que ela preferiria esquecer; pensa se deveria ou não entrar em contato com os pais e compartilhar com eles suas preocupações sobre os problemas do irmão; aceita sair com uma garota (Anna) que conhece num parque e que de alguma forma sabe algo das razões que fizeram seu irmão fugir da cidade. Gostei particularmente de como Scott faz sua protagonista lentamente preocupar-se menos com as questões puramente jurídicas do início da história para a partir da metade do livro concentrar-se nas questões mais abstratas e mundanas de sua vida pessoal. O livro trata de opções sexuais, feminismo, xenofobia, do modo de vida contemporâneo, escolhas e ritos de passagem da juventude para a vida adulta. Um escritor mais panfletário talvez usasse os temas deste livro para defender teses sociológicas, mas Scott alcança fugir desta armadilha. Nunca havia lido nada dele. Há algo nesse seu livro que lembra a ambientação daqueles romances sofisticados de Louis Begley, mas Scott parece não ter tanta fé quanto Begley na eficiência dos sistemas jurídicos. Interessante.
BLOG LIVROS QUE EU LI

O texto é leve e direto, sem adornos. Os diálogos não são marcados por parágrafos, aparecem dentro do fluxo narrativo de trechos mais extensos, sendo uma das qualidades da obra a contribuir com a fluidez. O livro é narrado na terceira pessoa, mas o narrador aqui não aparece como manipulador de destinos, ele apenas acompanha de perto as ações das personagens, deixando que os acontecimentos da própria narrativa se contem e se desdobrem. Um narrador que acompanha, não interfere. Assim, transformações significativas se vão dando ao longo da história por mudanças sutis e aos poucos, para então se precipitarem. Cada qual com suas idiossincrasias, as personagens têm dimensões internas bastante complexas, ao mesmo tempo em que seus mundos exteriores são feitos de padrões sociais facilmente reconhecíveis. Nelas, há uma espécie de precoce maturidade e independência, mas ainda assim algo de incapacitante. Estão em processo de formação, e dentro dele lidam com dissipações de identidade, cultura, família e afetos.
O que lemos é um livro jovem e de acesso fácil, embora não pouco profundo em sua capacidade de lidar com questões da contemporaneidade. Como que não podendo ser diferente, falando-se do contexto atual, Ithaca Road tem uma narrativa rica em buracos, vãos, subtramas que não se completam, não se resolvem. E o autor acerta, a meu ver, por não tentar resolvê-las.
(…) Neste livro de não muitas páginas sobre garotas/mulheres e em que o mundo global é amplo e esmaga, Scott, com uma prosa límpida e fluente, mostra-se um dos mais admiráveis narradores da literatura contemporânea brasileira. Ithaca Road, se não ajuda a compreender este século, sem dúvida o encara de frente.
MAPA REVISTA DE CRÍTICA LITERÁRIA

De même, dans Ithaca road, en entrant dans le quartier aborigène, Narelle se moque des limites sociales, elle appartient à une classe aisée, mais accompagne son ami dans ce quartier pauvre. Ainsi, l’épisode qu’elle a vécu avec les policiers qui l’ont violemment arrachée de ce lieu semble être une conséquence directe de cette transgression. Cet acte la met en face d’une réalité crue qui la dépasse. Mais contrairement à Donato, le malaise de Narelle ne se trouve pas dans l’hybridité de sa culture, plutôt dans un défaut de racines qui l’attacheraient solidement à la terre. Sa mobilité géographique, entre Océanie, Europe et Amérique a annihilé tout territoire et fait naître chez elle une grande désorientation : « Trinta anos e sem casa fixa, contando com a paciência das melhores amigas e dos pais, ocupando quartos extras, salas… Auckland, Sydney, Londres, Nova York, os quintos dos infernos […] » (Scott 2013:24). (…)
Narelle, quant à elle, souffre d’une absence de racines qui se traduit par une relative incapacité à nouer des relations sociales. D’ailleurs, elle partage dans le roman une amitié avec Anna, une jeune autiste avec qui elle dira partager de nombreux points communs. « Anna me fez bem. Temos coisas em comum. Acho que a única grande diferença é que estou mais preocupada em partir, e ela, ao modo dela, em chegar. » (Scott 2013 : 85). Tandis que l’une s’efforce de fuir le monde et les hommes, l’autre tente de surmonter ses difficultés afin d’y entrer pour trouver sa place. Cette volonté de se maintenir à distance des autres est née de l’expérience de Narelle à leur contact ; en effet son appartenance maori fait naître chez ses interlocuteurs un certain nombre de préjugés (…)
Nous constatons que le fait d’être métisse provoque une réaction due à ce qui est perçu comme une différence, presque une anormalité : elle provoque des réactions aussi diverses que la peur (elle est parfois expulsée ou accusée de vol) ou, au contraire, une attraction. Dans tous les cas, Narelle reste l’Autre et fait le choix de fuir et de n’être personne plutôt que de continuer à incarner l’Altérité. Le symptôme le plus évident de son malaise est sa maladie, le psoriasis, contre laquelle elle ne peut lutter, fluctuante comme son monde et ne lui laissant aucun repos (« Você não devia comer esse monte de gordura, Narelle. Não é bom pra sua psoríase… » (Scott 2012 : 12) ; « […] ; a psoríase está ali, quieta, ardendo, de volta»(Scott 2013 : 18) ; « Você sabe como as crises de psoríase me incomodam… » (Scott 2013 : 24) ; « […] (café não é nada bom quando se está passando por uma crise de psoríase) […] » (Scott 2013 : 99)
REVUE ELOHI (FRANÇA)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: